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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

A cor dos meus dias

(Palavras para uma imagem)

 

Há cores vivas que se cruzam e se fundem por entre o negrume dos dias. São as cores dos meus sonhos.

Há um cântico azul que aquieta a minha alma cinzenta. São sereias celestes que ondulam por entre as ondas brancas de um mar ciano. Para lá dos oceanos, o céu vai mudando de cor. Do amarelo nasce o laranja solar que se esconde num horizonte pintado de uma cor indefinida. É um misto de cores brilhantes que se reflectem na areia dourada que piso.

Do dia se faz noite e mudam-se as cores. Há estrelas de prata que dançam no céu e a lua cintila de branco.

E permaneço num sonho, qual fantasia colorida que se cria. É verde como a relva suave de um campo florido.

Uma chuva cristalina cai sobre nós e dançamos ao sabor de uma paixão que nos é púrpura.

E pinto-te. Pinto-te a ti, pinto-me a mim. Pinto-nos em telas brancas e deixo as cores do que te sinto. Há pinceladas rubras que ficam marcadas.

Em redor de nós, um cenário tingido com as cores do arco íris.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Heróis e heroínas

Quando era criança pensava que heróis e heroínas eram personagens dos contos de fadas, príncipes que salvavam belas adormecidas. Pensava que um herói fazia parte das histórias de encantar que a nossa mãe nos lia junto à cabeceira.

Um herói é muito mais do que os livros nos transmitiam e que o nosso imaginário conseguia atingir quando meninos e meninas inocentes.

Para mim, um herói é quem entra na nossa vida e nos faz sorrir espontaneamente, é quem nos oferece carinho gratuitamente, é quem nos lembra com saudade e não tem medo de mostrar ao mundo o quanto gosta de nós.

Um herói pode entrar na nossa vida devagarinho ou subitamente, mas consegue preencher a nossa alma a cada dia lembrando-nos de que tudo tem uma razão, tudo vale a pena e nunca devemos desistir dos nossos sonhos.

É a presença da alma que faz de quem quer seja um herói ou uma heroína. Porque há uma serenidade transmitida através de um apoio emocional sem limites e, apesar da distância, há uma proximidade sólida que se vai construindo.

Há quem esteja presente mesmo que longe de nós, demonstrando aquele conforto que tanta falta nos faz, através de uma palavra ou de um pequeno gesto que o torna num tão grande gesto.

Os heróis ouvem a nossa voz e deixam-nos chorar, ajudam a secar as nossas lágrimas e fazem-nos sorrir, deixam-nos palavras de esperança e ajudam-nos a sonhar no vazio do nosso pequeno mundo.

Heróis podem ser todos aqueles que, mesmo na ausência, estão presentes e conseguem fazer chegar até nós uma força inigualável, incomparável.

Heróis são quem nos ajuda a concretizar um sonho.

Esses sim, são os verdadeiros heróis e heroínas que transformam toda uma vida, deixam-nos de alma a voar e nunca, mas nunca se esquecem.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Encontro desencontrado

A campainha tocou naquele fim de tarde de Julho. Laura abriu a porta e Duarte entrou. Olharam-se durante breves instantes e acabaram num abraço de saudade, longo e apertado.

 

- Que linda.. - disse Duarte numa expressão ternurenta.

- Obrigada - respondeu Laura.

- A casa... mas tu também... - retorquiu Duarte com aquele sorriso matreiro que lhe era peculiar.

Laura acompanhou-o até à sala e sentou-se. Parecia manifestar uma certa timidez mas, ao encostar-se comodamente no sofá, começou a declarar a razão da sua visita.

- Estar aqui é um sonho tornado realidade.

- É verdade o que me dizes ou brincas, como sempre o fizeste?

- Preciso dizer-te a verdade. Fazes ideia de quanto tempo esperei por este momento?

- Não calculo e não consigo sequer imaginar. Este momento parece-me surreal. Mas fala, então.

- Sabes que há muitos anos, era eu miúdo, achei-te linda quando te vi pela primeira vez. E o meu coração bateu.

- Apesar de me parecer impossível, é quase inacreditável que só mo digas agora.

- Naquela tarde estava sol. Recordo-me como se fosse hoje. Estava sentado numa mesa da esplanada da praça... aquela que costumavas frequentar...

- Lembro-me que ia sempre a essa esplanada nos fins de tarde...

- Tu chegaste, alegre e descontraída como sempre, acompanhada de uns amigos que eu também conhecia. Aproximaste-te e sentaste-te.

- É natural. Sempre fui assim, bem disposta. E disse boa tarde com certeza. Digo sempre.

- Disseste. Mas não olhaste para mim. Nunca olhaste.

- É provável. Eras mais novo.

- Sim, era novo e idiota como os miúdos daquela idade. Tu, mais velha e madura, como poderias olhar para mim?

- Tens razão. Não olhei para ti. Não naquela altura. Mas uns anos mais tarde, não me foste indiferente.

- Já lá vão alguns anos, sim. Mas sempre que me aproximava, tu fugias.

- Verdade seja dita. Eu fugia mesmo. Porque quando te encontrei ao fim de tanto tempo e te vi a sorrir para mim, o meu coração bateu mais forte.

- E que razão era essa que te fazia fugir de mim?

- A minha razão. Afastar-me de ti seria a melhor atitude para contrariar o sentimento que começava a germinar dentro de mim...

- Sabes, já passaram muitos anos depois daquela tarde. E outros tantos depois do nosso reencontro. Agora, sou aquilo que vês e já não tenho tempo...

- E eu sou aquilo que sempre fui, apesar das mágoas que foram surgindo ao longo do meu percurso.

- E o destino mudou o rumo à minha vida.

- Não alterou apenas o rumo da tua vida. O destino desviou os nossos caminhos. Existe alguma força superior que não quer que nos juntemos. Lamento por ti, lamento por mim. Lamento por nós.

- Eu também. Muito mesmo.

- És feliz, por acaso? - perguntou Laura sem pensar.

- Tento ser.

- Desculpa dizer-te, mas se tentas ser é porque não o és. Não na sua verdadeira essência.

- Tenho alturas em que sou.

- Tens momentos, o que é demasiado importante. Posso, então, confessar-te uma coisa?

- Sim, podes e deves.

- Foste o meu príncipe encantado. Terias sido até sempre. Foste o homem que quis para ficar a meu lado. Mas transformaste-te num sapo - soltei um riso suave.

- Se pudesse, mudava-me hoje mesmo para aqui, mesmo sendo um sapo - sorriste.

- Nunca. Não quero partilhar o meu espaço com ninguém. As relações saudáveis já não existem. O namoro é mais duradouro, aquele em que cada um vive na sua própria casa.

- Mas estar aqui contigo faz-me esquecer o mundo lá fora. Se bem que agora é tarde.

- Posso perguntar-te porque é que não lutaste por mim, já que o que sentias era assim tão imenso?

- Porque sabia que iria ser em vão.

- Nada é em vão. Há que tentar conquistar quem para nós é deveras importante.

- Não conseguiria. Como já disse, nem para mim olhavas. Eu para ti não existia.

- Disseste há pouco que agora é tarde. Mas nunca é. Não para tentar recuperar o que se perdeu. Não para se ser feliz. Mas, neste caso, até és capaz de ter razão. Provavelmente, é mesmo muito tarde.

- Sim, o nosso encontro chegou a más horas e nada entre nós vai ser possível.

- Sensato da tua parte. Além disso, a nossa diferença de idades é grande e depois eu ficava velhinha. Já tu... - Laura brincou com uma tristeza no sorrir.

- Poderias até ter setenta anos, que eu iria sentir por ti a mesma coisa... - disse Duarte com uma lágrima no olhar.

- Sempre gostaste de brincar - disse Laura com um nó na garganta.

- Não chores agora, por favor - pediu Duarte, com um sorriso triste.

- Não...

- Eu tinha de dizer-te tudo isto, fosse em que altura fosse e em que dia fosse. E foi hoje.

- Mas porquê tantos desencontros? Temos estado tão perto um do outro e ao mesmo tempo tão longe. Porque é que a vida é tão cruel?

- Não sei.

- Podíamos ter ficado juntos. Podíamos ter sido felizes...

- Podíamos, dizes bem. Porque eu não tenho nada para te dar...

- ... - Laura não conseguiu proferir uma palavra.

- Tenho de ir trabalhar. A minha hora de jantar já terminou. - disse Duarte ao olhar para o relógio.

- Mas não jantaste...

- Tinha de falar contigo. E poderia não ter tempo noutro dia qualquer.

- Já vais, então..

- Sim...

 

Laura acompanhou-o até à porta e o seu abraço repetiu-se, desta vez menos longo e mais suave. Ao vê-lo sair teve a certeza de que, depois de tantos desencontros entre ele e ela, um encontro como aquele não voltaria a repetir-se.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Encontros e desencontros

Cruzo-me contigo pelas ruas da cidade. Passas apressado numa condução veloz, ligas as luzes de emergência e fazes soar o alarme. Salvas vidas, extingues incêndios, ajudas crianças a nascer em plena viagem. Há pessoas feridas que te deixam uma palavra de apreço e lavas-te em lágrimas por uma perda humana. Sais à pressa para mais um incêndio e eu vejo-te partir com furor. Permaneço na esperança de que fiques a salvo, mas tu não sabes que rezo por ti.

Combates as chamas que lavram as matas, incendeias a alma por entre o arvoredo que teima em queimar. Salvas do fogo animais perdidos que te lambem o rosto em sinal de gratidão.

Regressas exausto de mais uma luta e soltas um sorriso para ninguém perceber. Observo-te através da vidraça e vejo-te conversar com pessoas encontradas ao acaso. E eu estou ali, tão perto de ti, mas tu não sentes a minha presença. Contemplo-te num disfarce veloz na esperança de alcançar um sinal, mas tu não me vês. Vou até junto de ti, mas quando chego está apenas o lugar que deixaste ficar.

Cruzas-te comigo pelas ruas da cidade. Passas por mim no teu andar compassado  e aprontas-te para mais uma batalha. Os nossos rostos encontram-se, trocam-se os olhares, mas nenhum de nós pára para estender a mão. Quero aproximar-me, partilhar a minha vida com a tua, mas há uma distância que nos separa. Imagino o que poderíamos ser e as palavras ficam guardadas em silêncio. Sei quem és, mas não sei o que sentes. Sabes quem sou, mas não me conheces.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Perdas materiais

Há muitos anos, fui passar férias à Póvoa de Varzim com a mana e um grupo de amigos. Ficámos em casa de uma pessoa conhecida que morava perto da praia, no rés do chão de um prédio na avenida principal. Depois de uma noite de folia, acordei no dia seguinte e resolvi lavar a roupa que tinha usado bem como os ténis. Lembro-me que eram uns puma brancos que eu adorava e que, por sinal, se encontravam um tanto ou quanto sujos, não fossem as pisadelas que havia levado na discoteca. Depois de lavá-los, coloquei-os no parapeito da janela da cozinha que ficava virada para a avenida. O dono da casa, ao reparar no que que eu acabara de fazer, alertou-me para retirar os ditos ténis dali porque poderia passar alguém e roubá-los. Eu, incrédula, levei o aviso para a brincadeira e deixei-me ficar sentada no sofá da sala enquanto aguardava que as sapatilhas secassem. Como o calor era muito, dali a pouco tempo fui à cozinha e olhei através da janela. Abri a boca e soltei um 'não acredito!' que chamou toda a gente da casa para junto de mim. Os meus ténis favoritos não estavam lá! Tinham sido roubados! Quase chorei ao ouvir o meu amigo dizer 'eu avisei-te!'. Era tarde demais e nada havia a fazer a não ser lamentar o sucedido. Não ia conseguir recuperar os puma, por isso não adiantava chorar sob o leite derramado. Sim, porque a culpa tinha sido minha por não ter dado ouvidos ao meu amigo.

Como se não bastasse, no dia seguinte fomos à praia e decidi levar uma saia branca com flores às cores que eu adorava, tanto como aos ténis perdidos. Por cima da saia, uma camisola comprida. No final da tarde, depois de um dia de areia e mar, fomos à esplanada da praia comer um petisco e beber umas cervejinhas. Lembro-me de colocar a saia nas costas da cadeira e de ficar apenas com a t-shirt vestida, para que o sol queimasse as minhas pernitas magritas. A alegria era tanta que, depois de uma cervejinha, vai mais uma rodada e assim sucessivamente. Risada para aqui, gargalhada para acolá, foi-se aproximando o por de sol. Levantámo-nos e, de toalhas ao ombro, fomos em direcção a casa para nos prepararmos para jantar fora. Senti-me vazia, faltava-me algo. A saia! Onde estava a minha saia?

No dia seguinte, antes de irmos para a praia, fui perguntar ao senhor da esplanada se havia encontrado uma saia que, eventualmente e provavelmente, ficara nas costas de uma cadeira. A resposta foi 'não, menina'.

Chorei como uma criancinha mimada e os meus amigos ainda se riram de mim!

Em poucos dias, numas belas férias, perdi uma saia e um par de ténis. Inacreditável!

Culpa minha, claro! Só não perdi a cabeça, porque estava agarrada ao pescoço.

 

 

(Texto baseado em factos verídicos para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

    Não adianta muito, porque há quem não respeite. E ...

  • Anónimo

    Tenho o livro " Asas perdidas " de sua autoria e g...

  • Ametista

    O que se consegue fazer hoje em dia...Beijinho

  • Happy

    O desenho é fantástico!

  • Ametista

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