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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Palavras para uma imagem - Sentada à janela sob o luar

 

À noite, quando a minha família descansa cá em casa e lá fora as árvores dormem e as flores se escondem do escuro, sento-me no parapeito da janela do meu quarto e fico a ver as nuvens a passar. Dançam como bolas de algodão, pintam o céu de branco com o seu bailar e vão deixando a lua despertar para iluminar as madrugadas. 

É nessas alturas em que peço às estrelas que não parem de brilhar e me deixem ficar assim, ao sabor da aragem que ajuda a esvoaçar os cortinados que aconchegam o meu quarto, para que consiga sonhar. E sonho, sonho que serei sempre criança porque se crescer fico assustada, a perda da inocência aperta-me o coração, põe-me triste e eu não quero chorar.

E penso que quero ficar sempre aqui, sentada nas almofadas mais macias que a minha mãe pôs junto à janela, para admirar docemente o que de mais belo existe nas noites.

Vejo os ramos balançarem devagarinho com o vento que vai soprando brandamente, avisto a luz do rio que corre para lá dos jardins, consigo ouvir ao longe as suas águas correrem de mansinho sobre as pedras junto ao leito. E continuo a escutar os ruídos que invadem a imensidão das sombras numa suavidade extrema. Escuto com carinho os pássaros da noite, vindos dos beirais, que passam por mim a cantar baixinho e me fazem baloiçar. 

A lua vai mudando de tempos a tempos, quando está cheia aclara as noites num esplendor, parece que me pega ao colo e me conforta, e eu falo e rio e choro de alegria. Com ela fecho os olhos e sinto o céu tão perto, quase consigo tocá-lo, e há sempre uma estrela a brilhar só para mim, fiel aos meus segredos de criança. 

Permaneço neste divagar, vagueio descalça por entre as almofadas coloridas e brinco no meu mundo de fantasia e confidências, que se completa com a imponência do que é natural, singelo e tão imensamente leal.

Sinto abrir-se a porta do meu quarto, é a minha mãe que entra para me abraçar e diz-me com doçura a beijar os meus cabelos:

- Filha, queres que te conte uma história para adormeceres?

- Não, mãezinha. Sabes? A lua disse-me que cada estrela que brilha é um sorriso que nasce, é um sinal de esperança que envia a quem olha para o céu todas as noites. Também me disse que não existe beleza maior do que o silêncio das madrugadas, mesmo aquele que é quebrado pelos sons da natureza. Significa que está viva e é imortal, como os anjos que moram no infinito.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

por Leonor Teixeira

(a Ametista)

Primavera (II)

Encontrei-te na outra noite, trazias contigo aquele sorriso de criança e o olhar cândido que me fez prender a ti no mais inesquecível dia de Primavera. Não mudaste, continuas com esse teu ar de miúdo traquina, não consegui resistir a dizer-te que não envelheceste nem um pouco.

Ao olhar através do verde escuro dos teus olhos, vieram-me à lembrança recordações de nós, viajei nas melhores memórias que vivemos, embalei no tempo dos abraços e das mãos que se deram na mais bela história de um amor que não se repete.

Fomos felizes no tempo que foi nosso, arrecadámos para sempre as nossas horas que fizeram parar todos os relógios e nos deixaram ser nós mesmos. Deixámos guardadas na palma da mão as gotas da água cristalina dos rios derramados a nossos pés em fins de tarde primaveris e elas não escorreram por entre os dedos, lembras-te?

Ainda sinto na pele o aroma das marés que descobrimos, as correrias contra a demora nas areias, os passeios da sede de viver que saciámos no nosso deserto que, de ermo, se fez jardim.

Na outra noite revivi e renasci, atravessei o nosso mundo uma vez mais, encontrei-me ao encontrar-te a ti, abracei a árvore que plantámos numa soalheira manhã de fins de Abril e onde ficaram escritos, numa encosta, os nossos nomes. Nenhuma outra estação os abalou, nem os anos, nem o sol e a chuva os apagou, ainda sinto os beijos que nós demos e, no momento em que te lembro, consigo vê-los baloiçar sob os ramos.

Quis repetir o que ficou para trás, abri o baú das nossas vidas e dancei contigo na urgência de te ter, como também tu me quiseste no tempo das nossas madrugadas a florir. E foi tanto o quanto te quis que deixou de haver Verão, Outono e Inverno e escutei por entre lágrimas e sorrisos de saudade, como se fosse sempre Primavera, os solos de guitarra que só tu sabes tocar.

Fui buscar os segredos que ficaram presos à raiz da nossa história, percorri as viagens que fizemos de aventura às costas, passei nas estações de comboio onde parámos de corpos a cheirar a liberdade, sustive-me nos lugares onde ficámos perdidos na nossa essência de amar.

E ondulei na pele do teu rosto, senti os teus lábios nos meus cabelos, a nossa respiração tocou-se por entre a luz e a sombra das noites e fomos nós. Recebi das tuas mãos um cravo branco, reacendeu-se o palpitar dos nossos corações vindo da mais colorida estação, outrora confidente do mais sublime dos romances, e voltei a amar-te como nunca mais amei ninguém.

E eu quis que o tempo fosse todo nosso, quis tanto que parasse ao murmúrio da nossa voz e ao eco do silêncio dos sorrisos que são só meus e teus e quis, avidamente, que o mundo se calasse ao nosso abraço no mais doce amanhecer primaveril.

 

 

(Texto escrito em 13 de Dezembro de 2010, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira

(a Ametista)

Tudo e Nada

 

Por ti sinto tudo e o que não sei,

contigo sinto tudo e sinto nada,

sem ti não sinto nada e nada sei,

o tudo e o nada são tudo o que não sei

e o que te sinto...

Sinto-te através da lua,

confidente que me escuta e compreende,

que me ajuda a libertar dos meus fantasmas...

Sinto-te através do ribeiro que corre a meus pés,

me dá água para matar a sede,

aquela que tenho de ti...

Sinto-te através do chão que piso e me faz levitar,

aquele que me deixa o teu cheiro

para te respirar...

Sinto-te através daquilo que não sei,

daquilo que te reconheço e não conheço,

daquilo que te quero e te confesso...

Sinto-te e perco as palavras, fico muda,

olho-te e deixo de ver, fico sem luz,

suspiro-te e perco os meus sentidos...

Respiro-te, vivo-te, é o tudo e o nada,

é o até sempre sentir-te...

Busco-te no teu lugar,

trago-te até aqui, vivo-te por aí...

Guardo-te em cada espaço que te sinto,

num sítio qualquer...

Sonho-te e caminho contigo

de mãos dadas num compasso acertado...

Sento-me contigo na areia,

navego contigo no barco que te inventei,

no cenário de um mar que te criei...

Sinto-te e eternizo-me em ti, em tudo e em nada,

E neste tudo e nada que não sei e que te sinto,

perco-me em ti e perco-te a ti...

 

 

 

(Poema escrito em 16 de Fevereiro de 2009) in Asas Perdidas

 

por Leonor Teixeira

(a Ametista)

Voz

 

 

Às vezes, oiço vozes. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.

Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.

Sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão.

Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.

Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.

Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo uma janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.

Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.

 


 

imagem retirada de: http://weheartit.com

por Leonor Teixeira

(a Ametista)

Esta não é uma história de amor

Estou aqui, sentada frente a um écran que outrora não fazia parte da minha vida e onde agora ficam expressas as minhas divagações, para quem as quiser ler.

Lembro-me que escrevia em folhas de papel timbrado ou nas sebentas da escola, umas vezes com lápis outras com esferográfica. Podia ser azul, preta ou encarnada, o importante era que escrevesse e assim nasciam as letras. E eu escrevia, escrevia sem parar, o meu pensamento flutuava em cada lugar que estivesse, tudo eram palavras que irrompiam e iam ficando desenhadas em rascunhos.

Ainda hoje guardo todas as folhas em que deixei escritos devaneios e desabafos, estão hoje amarelecidas como as antiguidades que se guardam num sótão qualquer, empalidecidas como o tempo vai deixando as nossas vidas.

Acendo um cigarro, eu não queria fumar aqui, mas o frio está cortante na minha varanda com vista sobre a cidade e dentro de casa há um aconchego que me prende, mesmo que amarelecidas fiquem as paredes deste recanto onde a música não pára de tocar e o relógio suspenso se repete no seu compasso apressado.

Recordo o tempo em que escrevia até amanhecer, adormecia quando a vida começava lá fora e a agitação das ruas era a minha tranquilidade. Refugiava-me no conforto dos lençóis e ia acordando, ora com a chuva a cair nas pedras da calçada ora com raios de um sol caloroso, enquanto as palavras surgiam subitamente no meu pensamento e me levantava para deixá-las escritas, não fosse eu esquecê-las durante o sono, sentir a minha imaginação em branco ao acordar.

Vivia entre palavras e pinceladas. Palavras que se soltavam ao palpitar da alma e pinceladas que deixava em cada tela, com cores, muitas cores, aquelas com que quis tingir a minha vida. E assim soltava os meus fantasmas, amava por entre as lágrimas que escorriam sobre as letras que fazia despertar, amava a cada palavra que se erguia dos trechos que ia construindo. Amava a cada misto de cores que colocava na tela e a cada nascer de cenários abstractos e paisagens, aquelas que inventava. 'Assim posso chorar porque ninguém vê, ninguém sabe quem sou', pensava eu.

Tudo eram histórias de amor, essa palavra repetida que deixava rastejar pelo papel, sempre marcada no topo de cada folha em branco, chorada em cada virar de página, gravada em cada tela pincelada. Mas o vento foi mudando de rumo a cada instante dos meus dias e, hoje e agora, eu já não quero escrever histórias de amor.

Quero continuar a escrever, a escrever sem parar todas as horas da minha existência, mas histórias onde o amor é palavra proibida e a dor não pode entrar. Quero continuar a sonhar, mas com um sorriso, por entre as gotas de tinta de uma caneta quase extinta, como que num fogo apagado pela coragem de quem arrisca o destino por cada sopro de vida, cada coração que não pode parar de bater, mas sem descrever uma única história de amor.

Quero perder-me no reino da essência das coisas, sentar-me no seio da beleza que cai em redor das cidades e parar no tempo. Deitar-me na areia de uma praia qualquer e implorar à linha do horizonte que o céu e o mar se beijem a cada por de sol. Quero adormecer submersa e, através das águas cálidas de um oceano sereno, ver o céu tornar-se azul a cada alvorada. Quero alcançar as estrelas como nas histórias que escrevi, transformar-me em pássaro, ter asas púrpura de veludo, rosto de lobo, alma cigana, coração de aço e subir à nuvem mais branca e doce.

Quero permanecer assim, como sempre fui. Rebelde, sempre rebelde, com sede de liberdade, com urgência de soltar o grito escondido que trago bem preso no ventre, mas sem chamar pelo amor nas minhas preces. Quero continuar com esta vontade de lutar e vencer ou sair vencida, mas lutar sempre e até sempre. Ser eu, sem medo de demonstrar quem fui, quem sou, o que sei e o que não sei, quem gostaria de ser. Simplesmente genuína, a transbordar de um desejo desmedido de dançar sobre as páginas do livro de histórias que escrevi, tocar o céu e beijar a lua, esconder-me no seu colo.

Tudo em mim é imensurável. O meu amor às letras, a minha rebeldia para deixar falar mais alto a minha alma, a minha força para gritar no silêncio das palavras até me doerem os dedos. É imensamente grande a minha vontade de abraçar todos os livros de poesia, aqueles que dormem na biblioteca do jardim da avenida onde, há muito tempo atrás, arrumei nas prateleiras para descansarem do desfolhar sôfrego em dias de correria. A minha sede de devorá-los com as mãos e com os olhos é tão maior, é uma ânsia que me arrepia a pele do tanto que quero ler e conhecer, do tanto que quero saber sobre os poetas que esquecem o mundo por amor às palavras e deixam no papel, cantadas em verso, as mais belas histórias nunca antes lidas.

E é imensurável, oh se é, a minha capacidade para sonhar acordada e acreditar, para depois desacreditar. É assim que sou. Mas já não quero histórias de amor.

Volto à varanda com vista sobre a cidade, quebrou-se o frio das madrugadas, observo as luzes que se acendem no ocaso e admiro a beleza que brota do esplendor que emanam depois do crepúsculo. Avisto silhuetas ao longe que passeiam, carros que circulam devagar num silêncio apagado pelo canto de uma cigarra que surge como numa noite quente.

Eu quero escrever cada momento, quero escrever sem parar. Conseguir descrever na perfeição o suspiro de um coração liberto e o brilho de um olhar que agradece o privilégio do despertar a cada manhã. Quero descrever em pormenor o momento em que o sol entra na minha vida para me abraçar, qual alma vazia que se preenche ao esquecer a palavra amar.

Fui deixando escritos, ao longo dos tempos, sentimentos de alma, esboços de uma vida, aqueles que se choram e deixam saudade. Histórias, memórias, momentos, sonhos que foram ficando guardados, uns num baú de memórias envoltos num laço de cordel, outros nas páginas do meu Danças em Silêncio, espero que para sempre.

Mas já não quero escrever mais histórias de (des)amor.

 

Cúmplices. Eu e as palavras.


 

(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira

(a Ametista)

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

  • Ametista

    Verdade... memórias que já não voltam Beijinho

  • Anónimo

    Palavras muito bem escritas, como sempre. Adorei. ...

  • Anónimo

    Ao ler-te, chorei...não consigo escrever mais nada...

  • Happy

    A saudade de pessoas a quem queremos ou quisemos b...

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