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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Com poucas linhas

(Palavras para uma imagem de: Pablo Picasso)

 

Às vezes sinto-te chegar, pássaro branco. Trazes no bico uma flor.

Abres a porta do meu mundo e entras nos meus sonhos devagar. Recolhes-me no teu colo e afagas os meus cabelos lentamente com as tuas penas brancas, tocas no meu rosto na mais delicada carícia. E eu, em poucas linhas, pinto-te a carvão.

Em redor de nós, um vento brando que traz consigo um silêncio precioso e profundo. Nada consegue quebrar esta aragem que nos faz levitar.

Apertas-me docemente de encontro ao teu peito cor de neve e macio como lãs, envolves-me nas tuas asas de veludo e dançamos no silêncio que o vento trouxe, é-nos fiel e faz-nos subir até à nuvem mais alta. Enlaçamo-nos por entre gestos de uma ternura quase transcendental.

Respiram-se os nossos sentidos, tocam-se as nossas almas. É tudo tão suave. Pára o tempo, acaba o mundo e permanecemos neste misto de magia e inocência, meu pássaro branco.

Chamas por mim num cântico supremo e eu rendo-me a ti, tal como tu te entregas à sublime liberdade de voar. Passeamos sob um manto azul na amplitude de um intervalo, é como a vibração celestial das pradarias, e vagueamos no brilho das estrelas.

Não consigo já viver sem ti, dormes no meu ombro a cada noite fria, o teu sono é como a aragem quente que sopra nos desertos. Tu, que despes a chuva quando cai e a vestes de sol, aquele que inebria o meu leito e me alimenta.

É uma porta aberta para um sonho que se repete em cada pedaço de linha que traço com o lápis por entre os meus dedos. Uma linha apenas, das poucas que vou delineando até conceber o perfil do teu voo.

Não me fujas, ave branca, meu amparo constante que me eleva na utopia dos dias cinzentos. Leva-me contigo rumo ao arco-íris, transforma-me em pássaro com as linhas com que te desenhei.


 

(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Certezas e Incertezas

 

Laura carregava em si todas as incertezas, trazia consigo tudo o que não sabia. Só o mar lhe dava respostas a todas as perguntas, conseguia saber o porquê na imensidão do azul das águas revoltas, o porquê de todos os nãos que lhe rasgavam as entranhas como punhais.

Debaixo do sol vermelho libertava-se das armadilhas do destino, nas areias brancas era-lhe devolvida a liberdade. Pelas pradarias coloridas sarava as feridas abertas pelos espinhos dos atalhos obscuros que lhe ardiam na pele, nos montes e vales encontrava a saída do labirinto que a aprisionava, onde se perdia e se esquecia de quem era.

Duarte, por sua vez, tinha todas as certezas do mundo. Sabia os quês de todos os porquês, não tinha dúvidas nem receios. Não precisava dos oceanos nem dos campos, via tudo através das cidades por entre as estações das chuvas. Era racional, mas não tinha liberdade. Não se perdia na identidade, mas escondia-se em alguém que não havia.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

África dos meus sonhos - A minha versão

 'Voa por mim, pássaro do sol.

Voa alto.'

África dos meus sonhos, de Kuki Gallmann

 

Kuki viu Paolo surgir por entre as colinas verdejantes e floridas, descalço como sempre gostara, andando em passos largos pelo chão quente do Quénia. Trazia consigo aquele sorriso rasgado no rosto, prova da felicidade que transportava tão docemente na alma, e o espírito de aventureiro que lhe era profundamente característico. Por cada árvore que passava colhia uma flor, um fruto, um ramo, uma folha, um cheiro de tudo. A sorrir, sempre a sorrir, chegava à fazenda e envolvia Kuki num abraço, rodopiava com ela no seu colo e cantarolava músicas africanas. Todo o seu contentamento era sinal de que cumprira mais uma missão em prol da vida selvagem para além do seu amor a Kuki, eterna companheira de aventuras, que deixara para trás a sua vida em Itália para ficar com ele, sempre fiel e leal, num rancho junto às florestas do Quénia.

Paolo não tinha morrido. Mas, a cada amanhecer, Kuki acordava assustada, de pele molhada e olhar aflito, o corpo trémulo por um sonho perturbador. Via o homem da sua vida adormecido como num sono sem fim, num lugar onde tudo era branco mas sombrio, e não acordava. Mas Paolo estava ali, deitado a seu lado, e o seu respirar era tranquilo, imensamente tranquilo. Kuki chegou a pensar que aquele sonho era significado de um presságio, um mau presságio, mas como poderia ser se, dizem, sonhar com a morte significa vida?

E Paolo vivia, vivia intensamente. Entregava-se de corpo e alma às mais nobres causas, todas as que envolvessem a protecção dos animais do Quénia, filhos de África. Acompanhava-o sempre nessa jornada Emanuele, seu enteado, cujo relacionamento era baseado numa entrega incondicional e desmedida, como pai e filho inseparáveis.

Todos os dias, ao entardecer, passeavam pelas planícies junto às nascentes e Emanuele, ainda criança, saltitava de braços abertos por entre lírios vermelhos selvagens, as suas mãos tentavam tocar as aves que pairavam nos ninhos a chilrear, os seus dedos dançavam como bailarinos ao sabor de um vento cálido. Paolo ficava sentado entre as acácias a observá-lo com um sorriso terno, na mais serena nostalgia. Emanuele parecia voar até aos céus, como o mais fascinante dos pássaros de África, e era tão alto o seu voo.

Emanuele era encantador, mas misterioso. Vivia de um segredo, o maior e mais perigoso de todos e que poderia ser-lhe fatal. A sua sedução por serpentes era incontrolável e, durante as manhãs e inícios de tarde, corria para o seu refúgio onde guardava as cobras que conseguira apanhar até então e cuidava carinhosamente de todas sem excepção, inclusivamente das mais mortíferas. Esta era a maior preocupação de Kuki que, desde que descobrira o esconderijo, temia pela vida do seu filho adolescente. Nos seus sonhos, eternos pesadelos, Emanuele perdia a vida violenta e tragicamente por uma mordedura de uma víbora.

Eram sonhos constantes, sonhos maus, pesadelos que a perseguiam a cada noite solitária, sempre que Paolo e Emanuele se ausentavam para pernoitar em defesa da natureza do Quénia.

- Afinal, estão ambos vivos - sussurrava à bebé Sveva, fruto da sua ligação com Paolo, sempre que a embalava no colo. - Os homens da minha vida só morrem nos meus sonhos porque, a cada despertar, eles estão aqui. Paolo descalço, como sempre, a cantarolar pela terra quente e húmida com um sorriso do tamanho do mundo e Emanuele a voar, na sua inocência e bondade, como um pássaro do sol.

Kuki, na sua tristeza e coragem, acreditou nessa utopia e fez dela a sua vida. Paolo e Emanuelle estavam ali, estariam sempre, para viverem com ela a fantasia da descoberta de toda a beleza de África e do tanto que as suas terras ainda tinham para lhes oferecer e ensinar.

Desde então, em cada fim de tarde, Kuki via um pássaro do Quénia, o mais belo que alguma vez vira, via-o voar devagar debaixo do sol que se punha resplandecente para lá dos rios. Bem perto, uma fogueira ardia nas colinas junto às acácias e os dois desapareciam no horizonte numa suavidade suprema. Paolo era o sol, Emanuele o pássaro.


 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

O que sinto cá dentro

 

Um dia disseste-me 'eu não quero atrasar a tua vida'. Não atrasaste. A minha vida foi apenas interrompida, como se um ponto e vírgula deixasse o meu tempo inacabado e não permitisse completar o meu parágrafo, mudar de linha.

Não foste tu. Foi algo superior a ti, uma força desconhecida como aquela que criou a natureza e não conseguiu impedir que a mão do homem a destruísse.

 

Comparação exagerada? Talvez, mas é isto que sinto cá dentro.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Não percebo, juro que não percebo

 

Depois do reencontro repleto de abraços e lágrimas de saudade, gestos de carinho e confissões de amor num tempo perdido, ele deu-lhe um beijo e disse: Gosto de ti. E ela perguntou: Gostas mesmo? Então, porque é que não lutaste por mim?

Porque gosto das duas, respondeu ele num sorriso embaraçado(?). Ela fixou-o nos olhos durante alguns minutos sem pestanejar, soltou uma gargalhada meio irónica meio incrédula e abriu a porta de casa como que a convidá-lo para sair. E ele saiu.

 

Dá para perceber?

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Palavras para uma imagem - A noite estrelada

( A noite estrelada de Vincent van Gogh)

 

- Preciso de subir ao céu e pintar as estrelas - disseste-me num passado que se me depara tão longínquo.

E continuaste a falar com um sorriso soberbamente indecifrável, sentado na tua poltrona gasta pelo tempo, de olhos fechados como que num delírio consciente.

- Preciso de fugir do tumulto das cidades e ficar no silêncio que separa a realidade do infinito. Quero a utopia do intocável, sentir a velocidade dos ventos que vêm com o sol quando se junta à lua e fica a seu lado nas noites. Quero sentar-me nas nuvens que correm devagar e assombram a terra molhada, pelas lágrimas dos deuses que choram a cantar. Quero mudar as cores do firmamento.

Ficaste em silêncio por breves instantes, pareceram-me quase eternos, era um silêncio assustador mas imensamente celestial. Depois, prosseguiste na tua deslumbrante divagação.

- Quero que a lua e as estrelas se tornem amarelas, o amarelo é a cor da alegria, e o céu seja da cor do fogo para aquecer as almas frias que vagueiam na incerteza do destino. Vais buscar o teu violino e tocas aquela música que faz o pincel pular por entre os meus dedos manchados de tinta a óleo e me ajuda, na sua fascinante melodia, a criar este cenário?

Ainda me lembro de me piscares o olho no teu semblante matreiro, misto de inocência e maturidade. Misterioso, tu, tão angustiado com a vida que corria lá fora.

- No canto inferior direito da tela ficará a velha igreja que fez gerar em mim o amor incondicional a esta arte e, ao lado, pintarei a livraria pela qual não me deixei ensinar, do tão pouco que li. Afinal, acabei por ser quem não queria, uma sombra perdida na luz dos caminhos.

Senti o silêncio uma vez mais, era profundo como a saudade e vazio como a morte. Vi uma lágrima cair pelo teu rosto abatido pelo passar das idades mas o teu sorriso retornou invulgar, como sempre, e continuaste na tua fantasia.

- No canto inferior esquerdo desenharei a montanha que desejo subir um dia e, do seu cume, tocar o céu com as minhas duas mãos. Sabes? Quero pintar o sol de azul.

Décadas depois, dou por mim a olhar para a tua noite estrelada e penso em ti, meu adorado Van Gogh, tu que partiste tão cedo e não regressaste. Tu és o sol que guarda as estrelas num céu que parece cair e eclodir com a terra e eu vejo-te dançar nessa noite sem fim.

E pintas, pintas até sempre o fascínio das noites e tudo se torna azul, tão azul, sem cidades nem gentes. Adormecem os dias, as noites despertam com a serenidade das madrugadas pintadas de amarelo e o mundo transforma-se em sonho, no teu sonho.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

    Não adianta muito, porque há quem não respeite. E ...

  • Anónimo

    Tenho o livro " Asas perdidas " de sua autoria e g...

  • Ametista

    O que se consegue fazer hoje em dia...Beijinho

  • Happy

    O desenho é fantástico!

  • Ametista

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