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No meu sótão mora uma vendedora de sonhos

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. L.T.

No meu sótão mora uma vendedora de sonhos

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. L.T.

As Pontes de Madison County - a minha versão

20119562.jpg

 

'Meu querido Robert,

 

Se esta carta chegar até ti, estejas onde estiveres, não farei já parte desta vida. Terei embarcado numa outra viagem, aquela que tu já conheces. Levo-te comigo no coração e procurarei por ti até te encontrar.

Escrevo-te para agradecer a história de amor que vivemos, aquela que sempre quis ter e que só tu me conseguiste proporcionar.

Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que chegaste às colinas de Iowa no teu velho Chevrolet. Trazias o ar rude dos anos marcado no rosto, mas um sorriso leal e um olhar terno.

Lá estava eu, no alpendre de madeira da quinta, a respirar mais uma tarde escaldante de Verão. Tu, um fotógrafo da National Geographic aventureiro e de alma nómada, vinhas em busca das pontes que povoam Madison County.

Senti-te perdido e ensinei-te o caminho. Levei-te a conhecer a ponte Roseman, onde ficaram as marcas daquele que foi o início inesperado da nossa história de amor.

Contigo, descobri que o amor existe na sua verdadeira essência. Contigo, aprendi a amar. Ensinaste-me que quando os sentimentos são puros e os gestos delicados, a nossa vida transforma-se e tudo parece perfeito.

Contigo, consegui elevar os meus sentidos mais profundos e que desconhecia ter. Juntos conseguimos partilhar duas vidas e vivê-las de uma só vez. Contigo, a minha vida ganhou brilho.

Recordas-te da nossa dança? Lembro-me do teu olhar quando surgi dentro do vestido que usei só para ti. Tocámo-nos tão suavemente que conseguíamos escutar o palpitar dos nossos corações. Vivemos dias de uma beleza tão rara que quase me pareceu um sonho.

Estou-te grata por isso. Pelo teu carinho, pelo teu amor, pelos dias em que foste o meu verdadeiro companheiro.

Sei que andas por aí, quem sabe por perto.

Recebi a caixa que me enviaste com todos os retratos que tiraste, todas as fotografias que captaste, todas as imagens que gravaste. Trouxe tudo comigo. O crucifixo que te dei naquele fim de tarde na pradaria, o álbum e as palavras que me dedicaste. Ainda trago comigo o teu cheiro, está gravado na minha pele.

Acredita que, se estivéssemos vivos, largaria tudo e iria ao teu encontro. Depois da morte do meu marido procurei por ti, mas não consegui encontrar-te. 

Após o meu desaparecimento, os meus filhos tiveram dificuldade em aceitar a  nossa história mas, depois de tantas descobertas, deram-me todo o apoio emocional que alguma mãe pode ter.  Consegui senti-lo, ao longe. Senti lágrimas correrem pelos seus rostos ao lerem a mais bela história de amor que alguém pode viver.

Passei todos estes anos com o peso da traição e nunca poderia abandonar a minha família. Apesar de um matrimónio quebrado pelo silêncio e uma indiferença vindos de há longo tempo e quase insuportáveis, não poderia ir na tua direcção. Não conseguiria deixar para trás os meus dois filhos.

Aquele dia chuvoso em que partiste para sempre foi o mais marcante da minha vida. Não consigo esquecer o teu gesto, aquele em que colocaste o crucifixo que te dei no espelho retrovisor do teu velho Chevrolet, enquanto esperavas por mim. Por momentos, que me pareceram tão longos quanto a dor de uma perda, senti-me entre o  partir e o ficar. Estive prestes a sair e chamar por ti, lançar-me nos teus braços e deixar-me ir.

Deste-me a maior prova de amor que alguém pode dar e eu acabei por ficar. Porque não podia partir. Nunca conseguiria ser feliz na sua plenitude, mesmo que a teu lado. Compreendes-me?

Não voltei a ver-te. Separámo-nos mas estivemos sempre juntos, porque os nossos corações uniram-se no dia em que nos conhecemos e ficaram ligados até à morte.

Pedi aos meus filhos a minha cremação. Concretizaram o meu desejo e lançaram as minhas cinzas às águas do rio que passa por baixo da ponte Roseman. Naquele lugar estão guardados segredos nossos, pedaços da nossa felicidade.

Hoje procuro por ti, procurarei até que me seja permitido. Quero ver-te chegar, reviver o nosso amor, viver a nossa história inacabada. E acredito que conseguirei encontrar-te, porque sinto que também tu procuras por mim.

Até breve, meu amor.

 

Eternamente tua

 

Francesca'

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

16 comentários

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por: Leonor T, a Ametista

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