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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Recordações escondidas

Acordei no mais frio domingo de Inverno dos últimos tempos. Olhei pela janela do quarto, observei a serra escondida para lá da chuva que caía sem cessar. A manhã estava imensamente triste, de tal forma que me transmitiu uma intensa nostalgia. Vagueei pela casa, preparei-me para as lides domésticas e subi a longa escadaria até ao sótão. Seria essa a divisão à qual me dedicaria naquele dia cinzento. Afinal, há muito tempo que não cumpria a tarefa de limpar o velho sótão onde, tantas vezes, me refugiei quando criança. Ao fim de subir os degraus que separavam o meu ninho do amplo recanto onde abundavam antiguidades, recordações de um passado longínquo, parei para retomar o fôlego e preparar-me para a labuta que se adivinhava. Aproximei-me da janela, abri-a de par em par e imaginei  a avenida onde nasci coberta de lilases que deixavam um cheiro fresco como que num dia de Primavera. Peguei no pano para iniciar a limpeza ao pó que se avistava nos móveis velhos, outrora pertencentes à parte inferior da habitação. Ao atravessar o amplo espaço construído de madeira, tropecei na velha arca de verga que pintei de azul há muitos anos atrás, agora encostada a um dos cantos do sótão.

'A velha arca azul, de memórias antigas guardadas. É mesmo por aqui que vou começar', pensei. Baixei-me devagar e abri a arca cuidadosamente, talvez com receio do saudosismo que me pudesse transmitir.

Bem no topo, por cima de postais do primeiro namorado, diários de aventuras da minha adolescência, livros de autógrafos de colegas de escola, cadernos e provas dos tempos de estudante, encontrava-se um saquinho de serapilheira natural fechado com um laço castanho. Desembrulhei o atilho e retirei do seu interior uma caixa de cartão reciclado, de cor bege, com uma textura refinada e uma flor em relevo num dos cantos da tampa. Segurei a pequena caixa nas minhas duas mãos, senti o cheiro doce que mantinha e abri-a delicadamente. Dentro da caixa, pousada num baralho de tarô, uma pequena carta semiaberta, outrora lacrada, deixava mostrar uma letra fina e inclinada. Senti-me regressar ao passado numa velocidade extrema.

'4 de Outubro de 2003. Recebi este baralho de tarô em 1996 e, na altura, disseram-me que me iria ajudar. Hoje, nada tenho de feiticeiro e este baralho já me ajudou bastante. Espero que faça o mesmo por ti. Um grande abraço de parabéns, neste dia tão especial.'

Feiticeiro, meu amigo eterno, fazes-me tanta falta. Pensei e cerrei as pálpebras com força. Naquele instante parou o tempo, esqueci-me da chuva e do frio lá fora, perdi a vontade de limpar. Viajei nos anos, fui ao encontro do maior amigo da minha vida. Vieram-me à memória as longas conversas que tivemos, as palavras que tão carinhosamente dissemos um ao outro, os segredos que revelámos, os mistérios que desvendámos, a lealdade que ficou entre nós. Almas unidas, corpos separados por um baralho de cartas que se cruzava por entre as nossas opiniões divergentes mas tão saudavelmente expostas em cima de uma mesa de amizade.

Passaram bastantes anos, demasiados até, mas o sentimento entre nós mantém-se inalterável apesar da distância geográfica que nos separa. Guardo até hoje, guardarei até sempre a pequena caixa, o baralho de tarô e a carta lacrada com um sentimento tão especial que, creio, não conseguirá caber no mundo inteiro. Acredito, tal como o maior amigo da minha vida me confessou um dia, que pudemos ter sido numa outra vida talvez irmãos, talvez amantes. Que um sentimento muito forte nos une desde o primeiro dia em que o nosso olhar se cruzou.

As cartas de tarô estão por lançar, esperam que o feiticeiro da minha vida volte para ler o meu destino.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira

(a Ametista)

6 comentários

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por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

  • Ametista

    Verdade... memórias que já não voltam Beijinho

  • Anónimo

    Palavras muito bem escritas, como sempre. Adorei. ...

  • Anónimo

    Ao ler-te, chorei...não consigo escrever mais nada...

  • Happy

    A saudade de pessoas a quem queremos ou quisemos b...

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