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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

P.S. I miss you

 

Às vezes, lembro-me de ti. Minto. Não só às vezes, mas muitas vezes, tantas, quase sempre.

Lembro, se me lembro. Passavas todas as noites à porta de casa da minha mãe, embrulhado num sobretudo preto que contrastava com a palidez da tua pele e fazia sobressair uns lábios sorridentes do teu rosto meio coberto por uns caracóis negros.

Conhecemo-nos numa daquelas noites frias de Outono, no lugar onde costumávamos ir beber café e lá estavas tu, vestido de preto no teu caminhar sereno como serena era a tua figura. Cruzámo-nos por entre os passos que íamos dando lentamente, o nosso olhar tocou-se com embaraço e sorrimos numa ingenuidade aparente, revelando os nossos nomes um ao outro.

Víamo-nos sempre, casualmente, no mesmo sítio e nas mesmas noites de fim de semana, por volta da mesma hora. Sem encontro marcado, lá estava eu no bar e tu aparecias alegre, sempre alegre, pelo meio das gentes que riam e conversavam descontraidamente.

E surgia o abraço. Era inevitável. Sempre o abraço, o mesmo de todas as vezes, longo e apertado por entre beijos na testa, muitos beijos. Nos teus braços, sentia-me tão pequenina e confortada.

Lembro-me de nos perdermos nas palavras até ao amanhecer, sentados lado a lado nas escadas do beco junto à entrada do bar, unidos por gestos de cumplicidade. Partilhámos momentos, sentimentos, falámos das nossas perdas e das nossas conquistas, rimos e chorámos juntos.

Uma noite, levaste-me a casa da tua mãe. Era tarde, fomos pelo quintal, abriste a porta das traseiras e quando entrei fechei os olhos com força, absorvi o aroma que rastejava pelos móveis e pelas paredes e exclamei num sorriso: cheira à casa da minha mãe.

Sentados na tua sala, frente a frente, debatemos o mistério da vida e a nossa crença no destino. Entrámos no mundo das adivinhas, discutimos  existências anteriores, contaste-me as experiências que viveste com o teu baralho de tarô, aquele que um dia acabaste por me oferecer. Tenho-o guardado no baú das minhas melhores memórias, permanece dentro da caixinha de cartão reciclado. Sabes? A caixinha tem o mesmo cheiro daquela noite em que a trouxeste escondida na mão, atrás das costas, para me dares como prenda de aniversário. E o bilhete, o que me deixaste, permanece de lacre aberto sobre as cartas que um dia foram tuas.

Lembras-te da história dos cigarros no teu cinzeiro e do segredo em seu redor? Nunca poderia contar aqui essa história, é tão nossa que ninguém pode saber, ninguém pode escutar.

Quase nos perdemos na palavra amar mas venceu a amizade que conseguimos solidificar e, como me disseste um dia, nunca poderíamos ser amantes porque o nosso encontro aconteceu em época incerta. Se tivesse sido um pouco antes ou um tanto depois, teríamos ficado juntos para sempre. Acredito que sim, se acredito.

Depois da nossa despedida na festa do vale, em que assistimos ao nascer do sol e dançámos até o sono chegar, não voltámos a ver-nos até hoje. Partiste para a cidade do amor e nunca mais voltaste. Tornámos a falar após alguns anos, depois de termos perdido o contacto por infortúnio do destino.

Mas as nossas conversas à distancia ajudaram-nos a recuperar os anos que ficaram para trás. Esquecemo-nos dos relógios, chegámos a falar horas a fio, mais pareciam confissões de dois adolescentes que mantêm a cumplicidade, extrema e inabalável. Houve alturas em que parecíamos dois verdadeiros poetas, as palavras saíam-nos em verso e as declarações de saudade transformavam-se num autêntico poema. As tuas confissões alojaram-se na minha alma e ergueram-se num eco que, de quando em vez, vai e vem: se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo.
Encontramo-nos na praia?, dizíamos a cada despedida como se o destino nos levasse a outra vida e o nosso adormecer fosse um ponto de partida para um encontro apenas meu e teu. Como tu próprio pediste, entre a areia e o mar.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

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por: Leonor T, a Ametista

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