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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Palavras para uma imagem - Lá fora

(Il Telescópio de René Magritte)

 

Às vezes, oiço vozes para lá da janela do meu quarto. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.

Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio lá fora por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.

Regresso, sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega junto à vidraça, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão, perto do parapeito.

Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua para lá da janela, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.

Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.

Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo a janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.

Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.

 

 

(Texto escrito em Março de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias

 

 

por Leonor Teixeira

(a Ametista)

13 comentários

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Pág. 1/2

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

  • Ametista

    Verdade... memórias que já não voltam Beijinho

  • Anónimo

    Palavras muito bem escritas, como sempre. Adorei. ...

  • Anónimo

    Ao ler-te, chorei...não consigo escrever mais nada...

  • Happy

    A saudade de pessoas a quem queremos ou quisemos b...

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