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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. Leonor Teixeira, a Ametista

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. Leonor Teixeira, a Ametista

do Natal - Uma bruxa diferente

BRUXINHA.jpg

 (crédito de imagem: Nico Niemi em Pinterest)

in "O Despertar dos Silêncios"

Querida bruxinha,

 

Sou uma menina pobre, sem pai nem mãe, e não acredito no pai natal. Cresci com a vizinhança que me adoptou, quando perdi aqueles que me puseram no mundo, mas com a certeza de que um dia alguma arte mágica nos ofereceria dias melhores.

Estou a escrever-te esta carta com um lápis partido e por afiar, num guardanapo de papel amarrotado que encontrei sobre a mesa da cozinha, no meio dos pratos vazios que esperam pelo pão da manhã e dos copos com água do rio para cada saciar de sede.

Posso dizer-te, no entanto, que sou feliz quando brinco com as outras crianças do bairro. Jogamos à apanhada, à cabra-cega e cantamos numa roda viva de mãos dadas. Acredito, também, que neste nosso mundo de carência o amor está sempre presente e a amizade é sentimento que não morre.

Um dia falaram-me de ti. Disseram-me que vives no meio do arvoredo de um bosque onde todos têm medo de entrar, numa casinha feita de canas de madeira com móveis de verga. Contaram-me que tens um caldeirão de barro a um canto da sala e, junto à janela que te inspira nas noites de luar, guardas uma vassoura, um chapéu de bico preto, um baú com poções mágicas e uma abóbora. Sabes? Disseram-me que sabes voar.

Desde então, criei uma fantasia sobre ti e acredito que, depois do bater das doze badaladas no relógio da torre da igreja e quando a aldeia dorme, te entregas aos teus feitiços mais secretos. Depois, pões dentro de um saco de pano molhos de desejos, aqueles que vais conceder, saltas para a tua vassoura até levantares voo, tocas o céu com os dedos a sorrir e espalhas sobre os telhados dos bairros sem abrigo pozinhos de bondade misturada com pedaços de sonhos para realizar.

Queria pedir-te dois desejos. O primeiro, que me tragas um livro, apenas um, sobre histórias de encantar. Pode ser? Gostava tanto de entrar no universo dos contos coloridos, onde há castelos e florestas verde esperança, príncipes que salvam belas adormecidas e em que há sempre um final feliz. O outro desejo, que é demasiado grande, é pedir-te que me leves a ver o mar. Dizem que é azul e imenso e que chora a cantar nas madrugadas. Sei que tem ondas de espuma branca que abraçam a areia num vaivém sem fim. É verdade que o mar tem sabor a sal?

Dizem os mal-aventurados que as bruxas são más e os seus truques perversos mas, desde que ouvi o teu nome pela primeira vez, senti que as tuas artes de feiticeira são para conceder os desejos das crianças que não sabem o valor das coisas belas. Tenho uma amiguinha que partilha deste meu segredo e, tal como eu, acredita em ti.

Preferia chamar-te fada, condiz mais contigo porque falam que, por detrás dessa capa preta e debaixo do chapéu que te disfarçam, está um corpo com pele de seda, branco e frágil, e um rosto formoso como o de uma princesa. Gostava tanto de te conhecer um dia, entrar no teu mundo de magia e saltitar na tua vassoura pelo bosque.

Fada-bruxa, posso pedir-te só mais um desejo? Ensinas-me a voar?

 

Da menina que não acredita no pai natal mas crê em ti, que és uma bruxa diferente.

 

 

(História escrita em 12-02-2011 para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Saudades tuas, Eddie

Meu querido Eddie,

Tenho saudades tuas. Tantas.

Desculpa se foste para uma família melhor. Tenho medo de não te esquecer, eras a minha outra metade, o meu guarda, meu fiel companheiro. Mas deixei-te por um lugar que te fizesse mais feliz. Aqui, sentia-te triste e revoltado. Por muito amor que te desse, não era o suficiente, não tinhas a liberdade que merecias.

Continuo a amar-te e a imaginar-te, lindo e traquina, a brincar com as bolinhas e o osso que tu tanto adoravas e a enroscares-te, de noite, nas tuas alcofas e almofadas que tanto te aconchegavam. Não houve uma noite que não me levantasse para tapar-te com as mantinhas que mordias nos fins de tarde. Eras tão friorento.

Lembras-te das nossas brincadeiras? Aquelas escadas têm tanto para contar. Parecias um cavalinho a rodopiar nas tuas danças com os teus brinquedos no terraço. E na cozinha? Recordas-te? Estavas sempre comigo e, às refeições, pedias-me bocadinhos de maçã que tanto ansiavas. E pão. Gostavas tanto de pão. De manhã, presenteava-te sempre com os teus biscoitos, meu guloso.

Na sala, eras o destruidor de almofadas mas dormias tantas vezes aos meus pés. Querias explorar a casa toda, mas fazias tantos disparates. Corrias sem parar, se conseguisses escapar-te para sítios proibidos, e eram tantas as tuas travessuras.

Tinhas tudo, mas faltava-te tanto. Amigos para brincar, sítios novos para conhecer, outros cheiros para sentir, terra inacabável para correres sem parar. Eu tinha de deixar-te ir.

Sabes que a minha saúde me trai, por vezes, e se me acontecesse alguma coisa quem iria tomar conta de ti? Só quis o teu bem, meu querido. Dói tanto viver sem ti. 

Por vezes encontro pêlos teus, um aqui outro ali, e lembro-me o quanto te abraçava quando saltavas para o meu colo para veres a cidade e, quando me sentias triste, envolvias as tuas patinhas em redor do meu pescoço e beijavas-me sem parar. O teu olhar era transparente e acalentavas a minha alma com a tua doçura. No outro dia encontrei, por acaso, coisinhas tuas e o meu coração encolheu-se, apertado. Quando chegaste aqui eras tão pequenino. Cresceste tanto, ficaste grande e robusto. És tão bonito.

Sei que estás bem, espero que me esqueças para não sofreres. Estás com pessoas que te amam desde o primeiro momento em que te viram e com quem foste, sem olhares para trás. Para sempre. 

A tua nova dona disse-me para ir visitar-te em breve, mas tive medo. Tenho medo. Medo de ver-te, de correr para ti, abraçar-te e não conseguir largar-te. E tenho medo por ti. Medo que te lembres de mim e fiques triste.

Recordo-te a cada dia, a cada hora, a cada momento. Ainda há pedaços de ti por este chão, memórias infindáveis que me corroem por dentro. Fotografias, vídeos, lembranças. Deixaste um vazio que me despedaça a alma. Choro todos os dias. Fazes-me tanta falta, meu querido. 

Foste tão amado. Mas o importante é que sejas feliz, o resto não importa. E não te abandonei, juro que não te abandonei. Simplesmente consegui uma família completa para ti. Nós éramos apenas tu e eu. Agora, és tu e muitos mais. Mudaram-te o nome, agora és o Salvador, porque salvaste alguém que perdeu um cãozinho de uma vida e esperava por ti sem saber que serias tu. Não há dia nem noite que não te peça desculpa. Sei que não me ouves, mas talvez saibas o que sinto. 

Meu querido Eddie, a minha saudade é infindável. Sem ti, morreu uma parte de mim, ficou um vazio que não consigo preencher. Quem sabe um dia, mais tarde, bem mais tarde, não nos encontraremos e damos um abracinho apertado? Sei onde moras e quando a dor e o tempo passarem, irei visitar -te.

Até lá e apesar de ausente, amar-te-ei. Amar-te-ei sempre. Porque tu, meu querido, eras a minha luz ao fundo do túnel, o meu puro amor.

Apagou-se a luz, o meu coração está pela metade, a minha alma está vazia. Espero que me perdoes. Até um dia qualquer, meu amor. 

20220222_000259.jpg

por Leonor Teixeira, a Ametista

Dream on after life

O meu sonho morreu. Definitivamente. 

Nao estou a olhar para o pablo nem para a letra da música, mas para o espaço, a sala. A música e o corpo a dançarem juntos. E a alma a dançar com eles, com a música, com o corpo, com tudo. 

E os sapatos. Os sapatos de pontas que me fariam dançar e, neles, ser feliz.

Talvez numa próxima vida.

por Leonor Teixeira, a Ametista

A Laura voltou

Encontrei a Laura na outra noite. Disse-me que voltou para ficar. Contou-me do sótão que encontrou para morar, com vistas fantásticas de todas as janelas e com um terraço enorme de onde vê o céu sem obstáculos. Disse-me que o jardim, uns degraus abaixo, parece um bosque encantado à noite e que, de manhã cedo, cheira a campo. 

Acho que a Laura encontrou o seu lugar, para se libertar de todos os fantasmas, e que ali sente paz.

Já não via a Laura há alguns anos e sabia que tinha partido para longe, no esquecimento de um amor que nunca chegou a acontecer. Pensei que nunca mais voltasse. Mas enganei-me. Regressou mais forte do que nunca e de sorriso aberto. Só senti a falta de um brilho no olhar. No entanto, a vida fez-lhe ver e acreditar de que há coisas mais importantes do que o amor a alguém. A paz, a tranquilidade, os cheiros das árvores e dos seres que envolvem os quintais, da água que sai da mangueira para regar a relva seca, do silêncio da noite e das estrelas. Afinal, tudo isso é amor, amor ao que realmente lhe importa. E assim se recuperam as asas perdidas de um pássaro que, há muito, deixou de voar.

A Laura disse-me que encontrou o campo na cidade, mas que ninguém sabe, ninguém conhece e que, às vezes, tem medo da solidão mas passa quando vê as igrejas iluminadas e o castelo pelas janelas. Disse-me, também, que em noites de lua cheia tudo se torna mágico.

A única saudade que tem é de fazer parte das histórias de encantar. Espero que volte a ser personagem dessas histórias.

Gostei tanto de ver a Laura. Que seja feliz, hoje e sempre.

por Leonor Teixeira, a Ametista

Um dos livros da minha vida

Enquanto os outros se divertem, neste sábado à noite, eu procuro na estante um dos livros da minha eleição, com dedicatória da minha mãe, e cujo filme adorei.

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Baseado em factos verídicos, passo a transcrever o texto de contracapa:

"Resolvi-me a fazer tudo o que pudesse para transformar Ol Ari Nyiro num exemplo sem paralelo do modo como esse ideal podia ser levado a cabo. A fazenda e os seus animais, selvagens e domésticos, e as suas plantas, cultivadas e indígenas, e as suas pessoas que, vivendo numa África em mudança, ainda se lembravam - mal - dos seus saberes tradicionais, seriam instituídos  num monumento vivo à memória dos homens que eu tinha amado".

Esta é a história de Kuki Gallmann, uma cidadã do mundo que, nascida nas proximidades de Veneza, se apaixonou por África, indo viver para o Quénia em 1972. Instalada no rancho de Ol Ari Nyiro, em Laikipia, tentou aí construir um lar harmonioso para si, para Paolo, o companheiro, e Emanuele, o filho. Tragicamente, os dois morrem um depois do outro, deixando-a entregue a uma dor e a uma perda que irá aprender a suportar e, depois, a ultilizar em benefício próprio. 

"África dos Meus Sonhos" constitui uma lição de vida num cenário paradisíaco, de amor pela Humanidade e pela Natureza: contém uma mensagem de esperança e de empenhamento num mundo em risco de extinção. Um exemplo único, enfim, de uma mulher de coragem, que ainda hoje vive no mesmo local com a filha, Sveva, e oito cães. 

Uma história ímpar transposta para o cinema - em 2000 - , com Kim Basinger no papel de Kuki Gallmann.

 

Este tema tornou-se, para mim, em Outubro de 2011 e após ter visto apenas o filme, num desafio para a Fábrica de Histórias, blog encerrado em Junho  de 2012, para tristeza de muitos dos 'seus operários'.

A história criada por mim aqui ficou:

https://omeusotaoecorderosa.blogs.sapo.pt/44502.html

É, de momento, o meu livro de cabeceira.

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

    Querido Cúmplice, Obrigada por passares pelo meu s...

  • cumplicedotempo

    De acordo com tudo o que disseste, e mais encantad...

  • Ametista

    Querida Green,Obrigada por passares por aqui.. É s...

  • green.eyes

    Querida Leonor,É sempre um prazer ler um texto teu...

  • Ametista

    Obrigada.. desculpe o tardio da resposta. Sabe? Já...

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