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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Reencontro

 

Querido Duarte,

 

Queria escrever-te mais uma carta mas, desta vez, sem falar de corações destroçados, de sentimentos desencontrados. Queria escrever-te uma carta, sim, mas construída de palavras doces e coloridas, sem mágoas e lágrimas.

Não quero histórias sobre confissões do que senti por ti, dos gritos silenciosos de um amor que durou demasiado tempo, tanto que não sei quanto. Não quero histórias que ficaram entre o partir e o ficar, sem princípio, meio e fim.

Sabes? Gostaria de falar-te de outras coisas. De sonhos, de desejos, de fantasias que foram preenchendo as horas dos meus dias.

Gostaria de falar-te da beleza que ficou por descobrir, dos passeios que ficaram por concretizar, do tanto que tivemos por inventar, das coisas mais simples da vida que deixámos por partilhar.

Queria dizer-te, até, que poderíamos ter alcançado o inatingível. Sabes que através dos sonhos tudo se torna possível? O nosso imaginário consegue chegar até onde a nossa alma nos levar. E tudo se torna tão bonito.

Posso contar-te que, juntos, já caminhámos à beira mar numa praia deserta, contemplámos o por de sol num fim de tarde de verão sentados na areia. Mergulhámos, lado a lado, numa onda branca e conseguimos chegar perto dos mais belos corais no fundo do mar. Depois de admirarmos um mundo de mil cores onde se respira natureza pura, nadámos de mãos dadas até à superfície dos oceanos. Para lá das águas cristalinas, sentimos o sol de um dia acabado de nascer que nos iluminou o rosto. Lembras-te da nossa dança na praia? Aquela que ficou por inventar? Conseguimos ondular os nossos corpos e enlaçámo-nos numa agitação lenta dos sentidos. À nossa volta, o som do mar cruzou-se com o cântico das gaivotas e, antes de partirmos, desenhámos o nosso nome na areia. Sabes? Ainda sinto o sabor a sal que ficou na nossa pele.

Juntos, percorremos estradas limpas e frescas, caminhámos devagar por entre montes e vales, saltámos nas pradarias. No final, descansámos abraçados debaixo de uma árvore no bosque secreto que guardou os nossos beijos. Consegues sentir o aroma das flores campestres? Tenho uma guardada nas páginas do livro que escrevi para ti.

Gostaria de falar-te do quanto acreditei que tudo poderia ser possível. Da esperança de ver-te chegar com uma rosa vermelha na mão e um brilho no olhar. Dos teus braços abertos para me levarem até ao mais alto dos rochedos e, de lá, admirar contigo a mais sublime das paisagens. Das semanas a viver-te por completo, dos meses de partilha, dos anos a teu lado com sorrisos.

Queria pegar nas palavras que te escrevi e declamar-tas num poema eterno. Queria recitar-te, num cenário de neve a cair numa noite de dezembro, o que a minha alma viveu por nós.

Gostaria finalmente de confessar-te que, ao reencontrar-te, senti confiança. Coragem para gastar a minha voz num grito e exclamar, de coração aberto, que renasceu a minha capacidade de lutar. Lutar, mas desta vez, por mim. Porque agora, mais do que nunca, quero recuperar a minha liberdade. A de ser feliz. Concedes-me esse direito?

 

Laura

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Carta a quem não lê

 

'Querido Duarte,

 

Sei que não me lês, sei que não entras no meu espaço.

Por isso confesso que não te esqueci, amor da minha vida presente.

Declaro aqui, neste meu mundo, que és tu que existes em cada momento imaginário do meu dia a dia.

Às vezes, vejo-te passar. Finjo que ignoro a tua presença, finjo que me és indiferente, mas és tu quem faz parte dos meus sonhos.

Sei que o tempo vai passar e nada vai mudar. Sabes, meu amor, bastava-me aquela conversa que nunca tivemos e sinto que jamais teremos. Mas as palavras permanecem guardadas num cantinho de mim, à espera do momento em que possa proferi-las.

 

 Embarquei no rio das lágrimas que derramei por ti e naveguei na imensidão do sentimento que te sustenho. Desaguei na ternura que me agarra a ti e naufraguei na perda deste amor ausente.

Podia cair uma estrela, que eu estaria aqui para contigo poder abraçá-la. Podia abater o sol, que eu estaria aqui para contigo sentir o seu ardor. Podia ruir a terra, que eu estaria aqui para contigo construir um mundo novo. Podia acabar tudo o que existe que eu estaria aqui, à tua espera.

 

Nunca saberás o meu verdadeiro sentimento, aquele que nutro por ti. Resta-me esperar que o tempo permita que me liberte de ti, um dia.

Mais ninguém conseguirá preencher o lugar que te pertence.

Adoro-te a ti.

 

Tua até sempre

 

Laura'

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Porta aberta para um Sonho

 

Querido Duarte,

 

Às vezes, sinto-te chegar.

Abres a porta do meu mundo e entras nos meus sonhos devagar. Recolhes-me no teu colo e afagas os meus cabelos lentamente. As tuas mãos percorrem o meu rosto por entre carícias delicadas.

Em redor de nós, um vento brando onde as palavras não pairam. Nada consegue quebrar esta aragem que nos faz levitar.

Apertas-me docemente de encontro ao peito, envolves-me nos teus braços e dançamos num silêncio fiel que nos faz subir até à nuvem mais alta. Enlaçamo-nos por entre gestos de uma ternura quase transcendental.

Respiram-se os nossos sentidos, tocam-se as nossas almas.

É tudo tão suave.

Pára o tempo, acaba o mundo e permanecemos neste misto de amor e inocência.

É uma porta aberta para um sonho que se repete em cada pedaço das horas que vão passando por mim.

 

Tua até sempre.

 

Laura

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

o Fim de Nós

 

Querido Duarte,

 

Eu quis ir ao teu encontro, mas voltaste a fugir.

Contigo descobri que não temos a mesma alma. A tua escapou por entre as vísceras do teu coração arrefecido.

Ensinaste-me que não faço parte de ti. E tu não poderás fazer parte da minha vida.

Contigo aprendi que nem o mais grandioso dos amores pode juntar duas pessoas que não têm o mesmo sonho, que não dançam a mesma música. Mesmo aquela que escutam em perfeita sintonia. Não é livre um amor assim.

A nossa música deixou simplesmente de tocar. É hora de esquecer o que não fomos. Ficaram os retalhos perdidos no chão de uma vida apenas. A outra vida és tu e não me pertence.

Fechei o meu coração. Lancei a chave às águas de um rio que corre veloz debaixo da ponte que separa as nossas vidas. Não há retorno. O meu coração está selado.

Mas a minha alma continua a dançar e consegue libertar-se num voo sem limites. E as palavras esperam por mim em volta de uma fogueira numa noite de luar.

E eu não vou fazer soar o teu nome.

 

Laura

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Um dia no Futuro

"Querido Duarte,

 

A tua filha visitou-me ontem. Já não nos víamos há longos anos e pareceu-me razoavelmente bem. Refeita da dor pela tua perda, trazia consigo um suave sorriso no rosto. Deu-me um abraço longo e apertado. Olhámo-nos em silêncio durante largos minutos.

É parecida contigo e está mais bonita do que nunca. Está prestes a entrar nos cinquenta, mas aquele aparelho rejuvenescedor que comprou há uns tempos devolveu-lhe uns bons anos de vida.

Sentámo-nos a conversar sobre o passado e o presente durante horas infindas. O futuro ficou por falar.

O mundo está diferente, muito diferente.

A natureza mudou de cor e o sol já não brilha. O verde transformou-se em cinzento e o branco ficou preto. Os rios secaram e a areia da praia desapareceu. Sentamo-nos no passeio da avenida para ver um mar que já não é azul. Já não há nascer nem por de sol e o vento sopra mais forte todos os dias.

As casas não têm janelas e as portas são blindadas. Parecem naves espaciais. Os utensílios domésticos foram substituídos por autómatos.

As pessoas têm medo de sair à rua e levam consigo uma arma de defesa quando saem para o emprego que escasseia a cada dia. Vivem dos rendimentos conseguidos ao longo dos anos e assim vão comprando máquinas e mais máquinas.

Os carros foram substituídos por avionetas de alta categoria e o trânsito na estrada diminuiu. A toda a hora se vêem pequenos aviões no ar a deslocarem-se de um lado para o outro. Os frequentes acidentes rodoviários deram lugar a acidentes aéreos.

Os pobres estão cada vez mais pobres, vivem na extrema miséria. Os ricos têm fortunas avultadas e os razoavelmente bem na vida conseguem obter, tardiamente, aparelhos e acessórios de alta tecnologia como uma ajuda preciosa para o dia a dia.

As guerras entre os povos continuam. A ganância sobrepõe-se aos valores, como sempre foi. Isso não mudou. É a ausência repugnante da razão e da justiça.

E o planeta estremece.

É este o mundo que temos hoje. Avançado por um lado, retrógrado por outro. O avanço desmedido derrubou a natureza e tudo perdeu o seu brilho. A ambição levada ao extremo abalou as nossas vidas.

Tenho saudades dos tempos em que tudo era normal apesar de que, nessa altura, o mundo já começava a entrar num desequilíbrio total. 

As minhas pernas estão cansadas, mas a minha sanidade mental mantém-se e ainda consigo escrever com a minha letra certinha e arredondada. Sabes que já ninguém escreve à mão?

Está na hora de finalizar este manuscrito. Vou enviar-to por um anjo.

Acreditas que o meu coração ainda bate por ti? Já ninguém ama assim, porque os sentimentos também mudaram. As pessoas estão frias e já não há gestos de ternura.

Lembras-te quando nos vimos pela última vez? Foi há uma vida, mas nesse tempo o sol ainda brilhava. Apesar dos nossos desencontros, havia luz. Agora, é tudo tão sombrio.

As notícias dizem diariamente que o mundo está prestes a acabar.

Calculo que no lugar onde te encontras o ar seja ameno e o ambiente sereno.

Ainda esperas por mim? Tenho tanto para te contar.

 

Tua até sempre.

 

Laura"

 

Levantou-se com dificuldade nos seus noventa e um anos e, apoiada na sua bengala, dirigiu-se ao quarto. Deitou-se na cama e fechou os olhos num sorriso de saudade. Deu um beijo à carta que escrevera e apertou-a de encontro ao peito.

Lá fora, um ruído ensurdecedor no ar e um silêncio assustador em terra. As ruas estavam desertas e o céu não tinha lua.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Quando a música deixou de tocar

Enquanto te amar, ouvirei sempre a mesma música...

Quando ela deixar de tocar, esqueci-te para sempre...

 

Disse Laura, tantas vezes, enquanto se olhava ao espelho antes de dormir.

 

E, naquele romper do dia, acordou de mais uma noite inquieta. Levantou-se, dirigiu-se à janela do quarto e parou. Afastou o cortinado que encobria, muito ao de leve, a luz vinda do exterior. Desviou suavemente os cabelos do rosto e olhou lá para fora. O sol parecia espreitar, meio escondido, através das nuvens. Contemplou a serra que avistava ao longe e respirou o ar da manhã. Deixou-se ficar no silêncio que lhe era permitido...  

 

E a música não tocou...

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Ele e Ela

 

Laura recebia mensagens com regularidade. As expressões de Duarte eram doces como os chocolatinhos da milka que Laura chegava a comer de madrugada enquanto, à distância, trocavam palavras de puro afecto. A ternura que ele deixava transparecer transmitia-lhe uma espécie de serenidade absoluta.

Passou o tempo e semanas depois, numa noite fria, Duarte apareceu com as palavras desenhadas no olhar. Irrompeu o enlace dos sentidos num silêncio de gestos declarados. Embalaram num abraço apetecido e respiraram-se ao sabor de uma carícia. Elevaram-se na essência de uma dança suave.

 

Ele? Deixou a fragrância da sua presença.

Ela? Guardou a quimera do que juntos não puderam construir.

 

Desculpa - disse Duarte na sua última mensagem.

Desculpo, mas não esqueço - pensou Laura.

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Confesso

 

Querido Duarte,

 

Sei que não me lês... sei que não entras no meu espaço...

Por isso confesso que não te esqueci, amor da minha vida presente... Declaro aqui, neste meu mundo, que és tu que existes em cada momento imaginário do meu dia a dia. Finjo que ignoro a tua presença, finjo que me és indiferente, mas és tu que fazes parte dos meus sonhos... Sei que o tempo vai passar e nada vai mudar... Só queria aquela conversa que nunca tivemos e jamais teremos. E as palavras permanecem guardadas num cantinho de mim sem nunca poder proferi-las na tua presença. Nunca saberás o meu verdadeiro sentimento... aquele que nutro por ti... Resta-me esperar que o tempo permita que me liberte de ti... um dia...
Mais ninguém conseguirá preencher o lugar que te pertence...
Adoro-te a ti...
Sê feliz...


Laura

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

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    Obrigada, Green Beijinhos

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