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No meu sótão mora uma vendedora de sonhos

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. L.T.

No meu sótão mora uma vendedora de sonhos

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. L.T.

'Não é o sol que faz a sombra'

 

Silêncio. Quero silêncio, diz a minha mente ensurdecida pelo sopro arrogante do vento que entra, num tumulto, pelas frestas da minha casa quase vazia e sem cor.

Mas o meu silêncio é astuto e intocável, envolve a minha solidão como uma bruma, veste-me de cinza e purifica de uma forma enganadora o meu corpo enegrecido pelas multidões.

E eu quero viver depressa, mas o meu silêncio assusta-me. É oco como o sossego que me acolhe, melancólico como a inércia dos meus gestos, funesto como os meus fantasmas mais recônditos, vago como a minha apatia pelos amanheceres no asfalto.

Eu quero silêncio, sim, mas tenho medo. Medo da sombra deste silêncio sedutor que atraiçoa as horas das minhas noites, ganha voz a cada segundo dos meus minutos e me segreda num beijo que tento evitar:

- Escreve sempre que o teu coração palpitar e a tua alma ditar, mas em silêncio. Tacteia as palavras no papel e deixa-te ficar aqui, onde a beleza do nada te sustém. Porque a sombra de que falas sou eu e chamam-me cegueira. A cegueira que se alimenta dos teus passos que dançam na procura da música que deixou simplesmente de tocar. É esta a melodia do silêncio, a do teu silêncio.

E o outro eu, o que não fala mas ouve e vê, geme num sufoco que ecoa pela casa e a sombra cega pára, atenta, ao meu lamento que se solta:

- Mas eu quero o silêncio das areias. É brando e cristalino, salpica-me a pele e a alma com a frescura das marés nos fins de tarde.

 

 

(Texto construído para a Fábrica de Histórias à volta do provérbio: Não é o sol que faz a sombra)

 

imagem retirada de: http://fotos.sapo.pt/

por Leonor Teixeira, a Ametista

Palavras para uma imagem - O velho do mar

 

Meu querido velho do mar,


No último fim de tarde sombrio de Setembro, quando morreste, saí de casa como sempre fiz todos os dias da minha vida mas, daquela vez, de corpo inerte. Carregava no rosto a marca dos anos e a angústia de uma espera incessante de ti, tu, que já não podias voltar.

Sentei-me junto ao cais da praia que sempre me ofereceu as melhores recordações da nossa juventude inacabada, que se perdeu nos tempos pelo amadurecer das idades.

O nevoeiro aproximou-se denso e frio como sempre fora e tanto me confortava a cada entrada das noites. A meu lado sentou-se a saudade, minha eterna confidente do passado, que trazia consigo aquela dor nostálgica que me acompanhou ao longo das décadas e se transformou, no momento em que partiste, numa aflição assustadora por nunca mais te poder ver.

Sabes? Era àquele lugar que eu ia sempre à mesma hora e onde me despedi de ti no mais triste entardecer a que se assistiu, disfarçado pela beleza da paisagem, ao lançar às águas frias do teu mar a última carta de amor que me deixaste. Nela ficaram escritas as tuas palavras derradeiras, agarradas à ausência tão própria de um homem dos oceanos, e onde dizias que não podias ser meu porque tu eras do mar e ele pertencia-te a ti, preenchia os teus minutos e mais nada nem ninguém poderia ocupar o seu lugar.

Lembro-me de ouvir falar de ti quando já não estavas, meu velho do mar. Chamavam-te o aventureiro solitário das marés, do tanto que desafiaste tempestades ao comando do navio que foi só teu. Era muito mais do que isso, era o teu lar, o teu recanto, a tua vida. Foi a tua verdadeira morada, tão e apenas tua. A pedra preciosa que amavas sem qualquer condição.

Recordo-me dos pescadores da aldeia contarem as tuas histórias sem se cansarem, ao redor de uma mesa da taberna da areia. Eram histórias plenas de aventura, falavam dos teus regressos de cada viagem, quando atracavas no porto e os abraçavas com uma força extrema pela alegria de voltar. E eu ouvia os contos que eram só teus, sabia-os de cor porque estava sempre lá, escondida entre os rochedos, à espera de ver-te chegar.

Eras um guerreiro, sobrevivias a qualquer intempérie e apesar de seres um homem marcado pelas estações, pelo sol ardente dos verões e o frio cortante dos invernos, eras dono de uma alma nobre, fiel ao teu mar e nada te detinha.

Sei que deixaste escritos pedaços das viagens em que embarcaste, descrições comoventes das tuas paragens por lugares distantes e onde ficaram retratados os teus sorrisos de cada vez que ancoravas num país qualquer. Foste guardando de uma forma memorável a força das amizades que construíste em terra firme e os adeus marcados pelo soltar das amarras.

Contam que eras solitário pela perda de um grande amor e pela lealdade que juraras ao teu navio, companheiro dos teus dias e afago das tuas noites. Seria eu o grande amor que deixaste para trás para te dedicares ao encanto e assombro dos oceanos? Sinto que sim, ou que talvez.

Nunca ninguém soube o teu verdadeiro nome, nunca o revelaste, e naquela noite em que uma águia sobrevoou circundante as dunas para lá da aldeia da praia, o teu navio naufragou na mudança das marés e o teu corpo nunca foi encontrado. Dizem que ficou junto aos mais belos corais, perto de um tesouro sem dono, no fundo do mar.

E eu quis soltar as amarras que me prenderam ao cais que te pertenceu e que ainda hoje é teu. E desejei adormecer sobre o navio onde moraste, lá, nas águas que navegaste por entre as brumas e em que, tantas vezes, mergulhaste na tentativa de respirar o impossível e onde agora descansas.

Os fins de tarde ficaram para sempre, tardes submersas onde jaz o teu corpo, pelas âncoras que agarraste e levaste contigo bem presas à tua alma de aventureiro solitário das marés.

Tua até sempre

 

M.
(a velha do cais)


 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

 

imagem cedida para a Fábrica de Histórias por: Jerónimo Afonso

por Leonor Teixeira, a Ametista

Desvarios de Verão

Ele surgiu despido de ausências, vestido de promessas, transbordando desejos incompletos. Veio, envolto em palavras por dizer, a sua pele cheirava a sal, partículas de areia cintilavam no seu corpo ardente como raios de um sol que nunca existira. Deixava transparecer a fantasia das mensagens guardadas para lá dos sonhos, onde tudo era surreal.

Naufragou no repouso absoluto do peito dela, ávido do seu encosto, beberam-se para lá de um crepúsculo estonteante, onde tudo se transforma e nada morre.

Foram para lá das marés, onde a terra cheira a chuva acabada de cair e nas estrelas está escrita a palavra amar. Os seus nomes ficaram gravados na lua que os acolheu, num céu onde o sono não mora e a tristeza é palavra proibida.

Risos e gargalhadas envolveram os momentos que agarraram com medo de que acabassem, mas o tempo parou no instante de um beijo demorado, talvez eterno, as horas deixaram de existir e a terra não voltou a girar.

- Queres voar comigo? Voar para lá do vento, entre o sonho e o que ficou por inventar? Queres descobrir comigo as cores do arco íris e pintar as nossas vidas de aguarela? - perguntou Duarte em palavras repetidas, proferidas por Laura num tempo distante.

Entregaram-se à mais tórrida das paixões, um misto de rubro e púrpura pintou o céu que encobria os dois corpos transpirados de saudade. Ao unirem-se no mais belo cenário de entrega, Duarte transformou-se em pássaro, Laura em sereia, respiraram-se por entre voos e mergulhos num cântico de uma beleza majestosa.

Um manto branco feito de cetim e madrepérola caiu de uma nuvem, cobriu o mar e amparou as ondas agitadas. Deitaram-se sobre ele, deixaram-se levar ao sabor da maresia, conseguiam escutar o bater frenético dos seus corações. Era urgente viverem-se por completo, era urgente amar perdidamente sem qualquer condição.

- Preciso de ti, deixa-me respirar-te, és a minha poesia... - Duarte fechou os olhos, quis adormecer naquele sonho, instante irrepetível do destino, permanecer pássaro até sempre. Quis agarrar aquele feitiço com a força que trazia bem presa às entranhas, aconchegar-se no colo da sereia que encontrara, construir um ninho.

Laura, porém, continha em si fragmentos de uma ilusão passada, pedaços de uma espera inacabada. Não conseguiu aninhá-lo, ondulou para lá dos oceanos, esqueceu-se que tinha coração, encontrou-se ao renascer sem alma numa aldeia de corais e não regressou.

Duarte chorou ao abandono num gemido ininterrupto, o seu lamento estremeceu as nuvens, as estrelas caíram, o sol colidiu com a lua, o céu desabou e o mar invadiu a terra.

Quebrou-se o feitiço. Um pássaro não chora a perda de uma sereia, não aquela que outrora fora ora menina inocente ora mulher sem rumo, que esperou por ele uma vida inteira sem sentido e que acabava, agora, de partir.

As quatro estações deixaram de existir. Ficou apenas a sombra de um último Verão, perdido no tempo, onde o amor e a paixão se juntaram na mais sublime das paisagens, para se perderem de seguida e fazerem desvairar o mundo.

Não ficou ninguém para contar, apenas um corvo esvoaçou durante séculos sobre o que restou da terra, rindo até à eternidade através do seu canto negro, quase poético.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Palavras para uma imagem - Espelho

 

Por onde andas, Duarte? Deixei de te ver, já não lembro o teu rosto, não reconheço o teu cheiro, desconheço quem és. Apenas recordo a tua voz.

Deixaste-me aqui, do lado de cá do espelho da vida, sozinha num mundo que já não me pertence, sem cor, sem brilho. Porque partiste? Pedi-te para ficares e tu insististe em ir e não voltar. Como irei continuar sem ti? A dor é demasiado grande, recuso-me a viver assim.

Deixas-me ir para junto de ti? Há um lugar a teu lado guardado para mim, não há? Eu sei que esse lugar existe, sinto que é meu, necessito urgentemente de alcançá-lo. Dá-me um sinal. Preciso de ti, mesmo que longe da vida que me foi oferecida e que agora renego.

Sabes? Esperei-te durante largos anos, sonhei-te como nunca imaginei ser possível, vivi-te como ninguém. Depois de conquistar-te a vida levou-te de mim, arrancou-me de ti, quebrou o que construí de nós.

Para lá do espelho há flores, amor da minha vida? Imagino um lugar sereno, um campo verde onde anjos flutuam de branco. Seremos nós? Acredito que sim. Não vivemos a mais bela história de amor? Não foi a nossa alma rasgada por um amor impossível que sobreviveu a um mundo hostil e que conseguimos ultrapassar em segredo? Em segredo, verdade. Lembras-te? Talvez por isso o destino não nos tenha proporcionado a libertação da nossa paixão.

Não respondes. Continuas aí, em silêncio, frente a um espelho prestes a quebrar, um espelho inventado para nós e que tem sido uma barreira que teimou em ficar. Vejo-te do lado de lá, de costas viradas para ti próprio, longe de mim, perto de um mundo que não conheço. E eu continuo a amar-te, impossível substituir-te. Ainda espero por ti, aguardo a cada minuto dos meus dias que tu surjas, vindo do outro lado do espelho, de braços abertos.

Tenho de confessar-te. Sinto necessidade de fazê-lo. Gritar ao mundo que foste a razão do livro que escrevi, das telas que pintei, das músicas que dancei, do lugar onde fiquei. E senti-te perto, tão perto, mas perdi-te na altura em que acreditei que a nossa história  poderia ser eterna. Acabei por encerrar a minha vida como se fosse uma folha de um diário e não virei a página.

O meu amor por ti está declarado no livro que escrevi para ti e tu não leste. Está aí, junto ao espelho que ergueste, entre quem és e quem gostarias de ter sido.

 

Tua até sempre.

 

Laura


 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Longe do Mundo

Encontrava-me na praia da velha vila onde passara tantos verões da minha adolescência. O areal era extenso, do seu lado esquerdo uma pequena baía cruzava-se com o mar. Ao longe, alguém deslizava numa prancha sobre as ondas que se iam tornando maiores, debaixo de um sol que se punha devagar no horizonte. O cenário era deslumbrante, sublime, talvez o mais belo fim de dia a que tinha tido o privilégio de assistir.

A praia estava deserta, apenas eu sentada na areia fresca que ia envolvendo na palma da mão. Deixei-me ficar até o frio apertar e a noite cerrar. Olhei para o céu, vi a lua esconder-se por detrás de nuvens negras que passavam apressadas. Era o início de mais uma noite rigorosa de Inverno. As luzes das ruas típicas da vila começavam a ganhar vida, reflectiam-se num mar que se tornara gélido como a noite.

Fui até ao bar da praia, sentei-me junto à janela à média luz, pedi um martini e acendi um cigarro. Não havia ninguém para além do dono do bar, um velho pescador que vivia numa pequena cabana a alguns metros dali. Havia música a tocar, um misto de blues e jazz que faziam lembrar-me os filmes dos anos quarenta e cinquenta. Olhei pela janela, vislumbrei ao longe um clarão súbito que se cruzou entre o céu e o mar. Senti-me deslumbrada por aquela luz intensa que brilhou por instantes e imediatamente se desvaneceu. Fez-se silêncio e tudo escureceu. Apagaram-se as luzes, a música deixou de tocar, a velha vila ficou sombria. Lá fora escutava-se a canção do mar, ouvia-se o uivo do vento.

Saí do bar, guiei-me pela luz do isqueiro que trazia sempre comigo e, na penumbra da noite, dirigi-me à casa de férias de outrora, agora desabitada. Ficava do outro lado da vila, perto do porto de abrigo. Ao chegar, entrei pelo quintal abandonado onde se encontrava o velho barracão, local onde não voltara a entrar desde há muitos anos. Parei a olhá-lo, senti o coração bater forte e recuei. Fiquei assim durante breves instantes, talvez fosse melhor partir e não voltar. Não queria recordar o passado, seria demasiado doloroso.

A noite permanecia escura, uma chuva fria começava a cair fortemente, gatos miavam nos telhados, mas não havia ninguém. Imaginei ouvir vozes vizinhas por perto, passos vagarosos na calçada, mas as ruas estavam desertas. Apenas eu me encontrava na vila no meio de uma noite tenebrosa. Por momentos, senti medo. O meu telemóvel deixara de funcionar, as casas em redor estavam fechadas, os cafés encerrados. Mas medo porquê, medo de quê? Ali crescera em cada Verão do passado, ali morava a minha alma, pedaços de mim guardados num tempo que não mais se repetira. Naquele dia estava só, sim, mas era assim que me encontrava, era assim que queria ficar.

Levei a mão ao bolso do casaco que me aquecia o corpo, toquei na chave da porta de entrada e fui até ao alpendre. Tive dificuldade em abri-la, era intenso o escuro da noite. O isqueiro que me guiara também já não funcionava, não havia luz para iluminar o espaço, estava tudo tão sombrio. Depois de algum tempo, consegui abrir a porta e fui tacteando paredes, tocando nos móveis cobertos por lençóis brancos. Lembrei-me que havia sempre fósforos na cozinha, a um canto da mesa de refeições. Ao encontrar uma caixa, acendi um e percorri a casa em busca da chave do barracão.

Subi a escadaria que dava ao primeiro andar ao mesmo tempo que ia recordando momentos. A cada degrau que subia, sorrisos e gargalhadas vinham-me à memória. Tantos verões passados ali, em família, na mais perfeita harmonia.

Encontrei a chave do barracão no meu quarto antigo. Estava dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Agarrei-a e apertei-a bem dentro da minha mão, senti-me queimar na força da chama de um fósforo que chegava ao fim. Acendi outro e procurei velas. Sabia que estavam lá, espalhadas pelo quarto. Desde miúda que gostava do atear de uma vela, pela luz que deixava, pelo cheiro que emanava.

Desci as escadas apressada, fiquei com medo que o mundo acabasse, saí à rua e corri até ao velho barracão. Não havia lua, permanecia escondida num céu sem cor, a chuva e o frio eram cortantes e a escuridão maior. Mas eu sabia de cor o caminho que, antigamente, percorrera vezes sem fim. Perdi o medo, atravessei o quintal e abri o portão com sofreguidão. Senti a minha mão tremer enquanto a chave rodava na fechadura mas, finalmente, abriu-se o portão.

A sala era ampla e vazia. Duas largas colunas apoiavam um tecto amarelecido pelo tempo, decorado agora por uma imensidão de teias de aranha. Cada parede era coberta por um espelho à excepção de uma, composta por uma vidraça que a atravessava de uma ponta à outra. Acendi uma vela e pousei-a no chão revestido a soalho, totalmente empoeirado. Vi a minha imagem sombria reflectida no espelho embaciado pelo tempo. O meu cabelo estava molhado, o meu corpo encharcado da chuva que caía lá fora sem cessar. Já não era a mesma, não voltaria a ser. Olhei para um dos cantos da sala. Encostado à parede, um rádio gravador coberto de pó adormecera naquele lugar escuro, longe do mundo. Aproximei-me dele, toquei-lhe suavemente, queria ligá-lo mas não havia luz. Carreguei no botão do play na esperança que ainda trabalhasse e a música começou a tocar. As pilhas do velho gravador funcionavam como que por magia.

 

Fame

I'm gonna live forever
I'm gonna learn how to fly... high...

 

Estaria a sonhar? Senti-me incrédula perante tamanho mistério. Talvez estivesse, sim, no meio de um sonho. Dei, então, início a alguns passos de dança lentos, imaginei-me menina outra vez, eterna bailarina.

'Dança, sonho meu, onde foi que te perdi?', perguntei-me baixinho e uma lágrima caiu-me pelo rosto cansado, com marcas de um passado jamais esquecido, onde a dança tinha sido a minha companheira de viagem.

Naquela noite escura, a chuva inundou as ruas do centro da vila, o mar escondeu o areal.  Eu permaneci no velho barracão, longe da vida lá fora, perto do mundo que inventei só para mim. Extinguiu-se a última vela, a música continuou a tocar e eu deixei-me ficar, entregue a uma dança singular, na escuridão de uma noite chuvosa e gélida de Inverno que se prolongou até ao romper do dia.


 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

30 de Fevereiro

Num qualquer dia trinta de Fevereiro cruzei-me comigo mesma por entre caminhos assombrados. Em cada um deles uma imagem, um ruído. Percorri espaços estreitos vezes sem fim. Em cada esquina braços estendidos tentavam alcançar-me, vozes em uníssono faziam soar o meu nome. Risos sarcásticos ouviam-se ao longe, gargalhadas repetidas por entre muros erguidos do vazio. Gritos doentios ecoavam sem parar, rostos alucinados cruzavam-se à pressa por entre a escuridão. Surgiam fantasmas de todos os lados, silhuetas disformes chamavam por mim.

Perdi o rumo, esqueci a minha identidade. Estradas sem saída, direcções cruzadas por entre o desconhecido. Perdi-me do mundo, entrei em delírio e atravessei o labirinto repetidamente, sem parar. Uma sombra vinda do nada acenou-me num adeus incessante. Não sei quem era, não sei o seu nome.

Parei, exausta. Respirei ofegante e estendi-me no chão frio num completo desvario. Adormeci num sono agitado. Passaram as horas, os dias, os meses. Os anos ficaram suspensos num passado ignorado. Memórias em branco perdidas aqui e ali, num lugar qualquer que não existia.

O meu corpo esguio manteve-se inerte à espera de luz e silêncio. E o tempo correu veloz.

Muito tempo depois, tanto que não sei quanto, num qualquer dia trinta de Fevereiro, um pedaço de sol despontou por entre as nuvens que ofuscavam o labirinto. O dia era o mesmo, a noite também, passagens de uma história vivida num sono demorado onde o surreal tinha tido o papel principal.

Nesse mesmo dia, a trinta de Fevereiro, encontrei a saída e descobri um mundo novo.

O sol punha-se num horizonte onde as cores se misturavam de uma forma mágica. A chuva caía, gotas de púrpura cruzavam-se com raios de um sol cor de rosa. O céu atravessava o mar por entre um fogo generoso e assim nascia a noite, quente como eu sempre gostara. Conseguia vislumbrar uma lua azul e as estrelas dançavam no céu pintadas de arco íris. Senti o aroma do iodo que se espalhava no ar por entre um vento que começava a ganhar rosto. Tinha o olhar do silêncio e o sorriso de uma nuvem. Afundei os pés numa areia que passou de dourada a branca como a neve e mergulhei numa liberdade que nunca sentira. Consegui tocar-lhe, tinha cor, era rubra como a mais tórrida das paixões.

Senti-me levitar e voei, dancei sobre um mar transparente no qual me estendi. Vi-me num cenário de ondas de cristal frente a uma plateia de corais onde os fantasmas do meu sono se transformavam em sonhadores como eu, ganhavam asas e voavam até à ilha que inventámos juntos. Os gritos doentios de outrora davam lugar a cânticos suaves nunca antes escutados, os risos sarcásticos eram agora sorrisos ternos, tão ternos que me pareciam algo transcendental. As silhuetas disformes surgiam perfeitas e frágeis, vestidas da cor da paz.

Naquele dia trinta de Fevereiro, elevei-me na fantasia de uma dança eterna na praia. E pedi ao calendário da vida:

'Não acabes, dia trinta de Fevereiro, não acabes e deixa-te ficar comigo, deixa-me ficar contigo, deixa-me ficar aqui, deixa-me ficar assim.'

E o tempo parou num abraço entre o pesadelo e o sonho, tão reais como um dia qualquer que não existe, nascido do mais belo feitiço a que pude assistir.

 

 

(Parte do texto foi escrito em 13 de Agosto de 2009 e agora adaptado para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Orgulhosamente Operária

 

1 de Setembro de 2009. 1.º Aniversário da Fábrica de Histórias.

 

Vejo-me a passear por entre divagações e encontro uma fábrica de histórias pousada numa nuvem branca. A seu lado uma outra nuvem, de mil cores, onde um grupo de operários partilha os seus sentidos de mãos dadas.

A porta está aberta. Entro na nuvem, estendem-me a mão e juntos criamos uma dança especial. É o baile das palavras que nos unem, por entre uma aliança de almas que se tocam num gesto encantador.

Consigo ouvir as nossas vozes que sussurram por entre a música que toca sem parar e as palavras ecoam em nosso redor, as histórias pairam no ar.

Há pedaços de prosa, pedaços de poesia guardados num cantinho de nós e a inspiração que nos espera sorri-nos através de uma nuvem coberta pelo imaginário que nos envolve.

Há escritas floridas enviadas e recebidas com carinho. São brancas como a paz, azuis como o mar, verdes como a esperança, de mil cores como os nossos sorrisos.

Ganhamos asas, voamos num céu que nos ampara e pousamos na praia que nos espera.

Damos as mãos sentados na areia dourada e emergem as nossas histórias que cantam com as gaivotas que sobrevoam a beira mar. É um cântico que nasce de um abraço construído de mil contos de encantar. As palavras soam num verso inigualável, enchem-nos a alma, trazem consigo um pouco de mar.

As ondas vêm até nós para nos beijar e eleva-se o nosso sentir. Mergulhamos nas suas águas como sereias a ondular nas profundezas de um oceano. Há uma fantasia que se aproxima de mansinho e chega até nós.

E desta forma tão sublime cresce a fábrica de histórias que encontrei, que abriu as portas de par em par e, tão delicadamente, me deixou entrar. A fábrica é azul, parece o sol a reflectir-se no mar.

As mãos estão dadas, a dança é perfeita, a arte eterna. Estamos na linha do horizonte.

Há cenário mais belo do que este?

Somos nós...

 

 

É uma honra fazer parte do grupo de operários da Fábrica de Histórias criada paralelamente  à Autores Editora, verdadeiros construtores de sonhos, e cujo projecto nasceu há um ano. Estão de parabéns!

 

Muito obrigada por existirem, muito obrigada por fazerem parte da minha vida.

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias em 6 de Setembro de 2009)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Palavras para uma imagem - Notebook, a minha versão

 

Ele e ela dirigiam-se a casa depois de uma agradável ida ao cinema. O filme a que tinham assistido tinha-lhes transmitido um estado de alma intenso. Caminhavam em silêncio e, ao aproximarem-se do semáforo que cruzava a rua principal da cidade com uma outra qualquer, ele deu-lhe a mão e puxou-a para junto de si. Ficaram tão perto um do outro que os seus lábios quase se tocaram. Naquele instante, o sinal estava vermelho e ele convidou-a para dançar.

Sem música?, perguntou ela em tom de timidez. Eu canto para ti, respondeu ele e, num gesto lento, enrolou-a de encontro ao peito conduzindo-a até à estrada. A rua estava deserta, o silêncio era de ouro. Observaram o semáforo passar a verde enquanto davam início a uma dança na estrada. Ele cantarolava qualquer música lenta enquanto os seus corpos se enlaçavam na mais perfeita harmonia. O sinal mudou de cor, passou de verde a laranja, a dança parou, olharam-se de perto e deitaram-se na estrada, lado a lado. As suas mãos cruzaram-se enquanto o vermelho do semáforo despontava, olharam as estrelas, identificaram cada uma delas sobre um chão frio que refrescava os seus corpos quentes, ávidos de aventura. Perderam a noção do perigo, permaneceram deitados sob um céu que deixava mostrar uma lua prateada, autêntica confidente de um momento que não queriam que acabasse.

O sinal passou a verde, sentiram um carro aproximar-se a alta velocidade e levantaram-se rapidamente. Saltitaram até ao passeio, as mãos continuavam dadas enquanto automóveis vindos de longe passavam apressados. Abraçaram o semáforo que ia mudando de cor, soltaram gargalhadas e voltaram a tocar-se numa dança lenta em redor do sinal de trânsito. Os risos deram lugar a sorrisos ternurentos.

Sentiam-se livres para desafiar o destino. O amor entre eles nascia agora, por entre um perigo e uma aventura que se encontravam entre o proibido e o devido. Era urgente permanecerem no intermitente, um intervalo que deixava o tempo parar e guardar nas folhas de um diário uma paixão que começava a ganhar as cores de um qualquer semáforo de rua.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Recordações escondidas

Acordei no mais frio domingo de Inverno dos últimos tempos. Olhei pela janela do quarto, observei a serra escondida para lá da chuva que caía sem cessar. A manhã estava imensamente triste, de tal forma que me transmitiu uma intensa nostalgia. Vagueei pela casa, preparei-me para as lides domésticas e subi a longa escadaria até ao sótão. Seria essa a divisão à qual me dedicaria naquele dia cinzento. Afinal, há muito tempo que não cumpria a tarefa de limpar o velho sótão onde, tantas vezes, me refugiei quando criança. Ao fim de subir os degraus que separavam o meu ninho do amplo recanto onde abundavam antiguidades, recordações de um passado longínquo, parei para retomar o fôlego e preparar-me para a labuta que se adivinhava. Aproximei-me da janela, abri-a de par em par e imaginei  a avenida onde nasci coberta de lilases que deixavam um cheiro fresco como que num dia de Primavera. Peguei no pano para iniciar a limpeza ao pó que se avistava nos móveis velhos, outrora pertencentes à parte inferior da habitação. Ao atravessar o amplo espaço construído de madeira, tropecei na velha arca de verga que pintei de azul há muitos anos atrás, agora encostada a um dos cantos do sótão.

'A velha arca azul, de memórias antigas guardadas. É mesmo por aqui que vou começar', pensei. Baixei-me devagar e abri a arca cuidadosamente, talvez com receio do saudosismo que me pudesse transmitir.

Bem no topo, por cima de postais do primeiro namorado, diários de aventuras da minha adolescência, livros de autógrafos de colegas de escola, cadernos e provas dos tempos de estudante, encontrava-se um saquinho de serapilheira natural fechado com um laço castanho. Desembrulhei o atilho e retirei do seu interior uma caixa de cartão reciclado, de cor bege, com uma textura refinada e uma flor em relevo num dos cantos da tampa. Segurei a pequena caixa nas minhas duas mãos, senti o cheiro doce que mantinha e abri-a delicadamente. Dentro da caixa, pousada num baralho de tarô, uma pequena carta semiaberta, outrora lacrada, deixava mostrar uma letra fina e inclinada. Senti-me regressar ao passado numa velocidade extrema.

'4 de Outubro de 2003. Recebi este baralho de tarô em 1996 e, na altura, disseram-me que me iria ajudar. Hoje, nada tenho de feiticeiro e este baralho já me ajudou bastante. Espero que faça o mesmo por ti. Um grande abraço de parabéns, neste dia tão especial.'

Feiticeiro, meu amigo eterno, fazes-me tanta falta. Pensei e cerrei as pálpebras com força. Naquele instante parou o tempo, esqueci-me da chuva e do frio lá fora, perdi a vontade de limpar. Viajei nos anos, fui ao encontro do maior amigo da minha vida. Vieram-me à memória as longas conversas que tivemos, as palavras que tão carinhosamente dissemos um ao outro, os segredos que revelámos, os mistérios que desvendámos, a lealdade que ficou entre nós. Almas unidas, corpos separados por um baralho de cartas que se cruzava por entre as nossas opiniões divergentes mas tão saudavelmente expostas em cima de uma mesa de amizade.

Passaram bastantes anos, demasiados até, mas o sentimento entre nós mantém-se inalterável apesar da distância geográfica que nos separa. Guardo até hoje, guardarei até sempre a pequena caixa, o baralho de tarô e a carta lacrada com um sentimento tão especial que, creio, não conseguirá caber no mundo inteiro. Acredito, tal como o maior amigo da minha vida me confessou um dia, que pudemos ter sido numa outra vida talvez irmãos, talvez amantes. Que um sentimento muito forte nos une desde o primeiro dia em que o nosso olhar se cruzou.

As cartas de tarô estão por lançar, esperam que o feiticeiro da minha vida volte para ler o meu destino.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Queres saber uma coisa?

(Palavras para uma imagem)

 

Queres saber uma coisa?

Queria pintar de arco íris a nossa infância. Vens comigo?

Vamos pincelar de azul o cinzento dos dias e transformar os pingos da chuva em gotas de prata.

Consegues avistar a floresta lá ao longe? Está pintada de verde e se subirmos à cabana feita de madeira que está na árvore que é só nossa conseguimos, lá do alto, sentir o cinzento das nuvens transformar-se em rosa e podemos ver pedaços de um sol que se retira para adormecer. Os pássaros estão escondidos pelo medo do tempo. Vamos ao seu encontro e pedir-lhes que nos ensinem a voar?

Sabes uma coisa? Gosto de estar aqui contigo. Tu, que tens os traços tão diferentes dos meus e que, ao mesmo tempo, és tão igual a mim.

Vamos lançar ao vento o guarda-chuva que nos ampara, tirar os chinelos dos pés e saltitar descalços por esta terra molhada que nos oferece um cheiro doce e alimenta os nossos sentidos?

Vens comigo sentir a chuva cair sobre a nossa pele? Parece água morna que vem do céu e nos ajuda a chapinhar nas poças do caminho que nos leva ao esconderijo que nos espera. De lá, conseguimos admirar o verde da erva que enfeita a berma da estrada.

Sabes? Aqui, não tenho frio e contigo não me sinto só. Um dia, encontrámo-nos e conhecemo-nos. Agora, damos as mãos todos os dias e brincamos juntos. Sabes que, à noitinha, consigo ver a lua espreitar por entre as nuvens que pintam o céu de branco? Não sentes o mesmo?

Aqui, neste lugar onde vivemos, misturam-se pedaços de cada ponto do mundo. Aqui, não existem diferenças, não há medos. Aqui, sente-se um cheiro a liberdade.

Queres saber uma coisa? A nossa cor de pele é tão diferente, mas as nossas almas são tão semelhantes. São cristalinas.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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