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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

...

Quero escrever e não consigo. Eu, que sempre me movi nas palavras, adormeci no vazio do papel em branco e acordei no esquecimento de uma contadora de histórias.

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(Eu no lançamento do meu livro há 4 anos atrás; foto do meu primo Guilherme Pinto transformada em desenho)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Instante

Quero ficar contigo, apenas de vez em quando. Isso basta-me. Porque o de vez em quando pode ser para sempre e o sempre, para mim, é muito pouco. Porque encurta-se a vida, nos anos expostos nos relógios que se apressam na demora de viver.

Pois eu já cumpri essa parte, já vivi, e o que sobra é tão pequeno. Dizem-me as horas que é preciso acabar num instante, para depois seguir viagem na solidão que nos transporta ao mistério do lugar.

E tu, tu és o meu instante.

 

P.S. Faltas-me. Faltas-me nesse sorriso que te cala e no silêncio que te move. 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

A um amigo

Há alegrias e tristezas que se fundem e tudo se transforma. É um turbilhão de emoções que nasce e surgem as incertezas.

Eu quero estar em todos os lugares, ficar com quem me é querido mas o tempo é ingrato e não dá permissão a tudo.

Desejo força a quem está a passar por momentos demasiado difíceis. Isso, sim, é o mais importante.

 

 

a um amigo

por Leonor Teixeira, a Ametista

Baloiço, tu que balanças ao vento sem mim...

 

 

... já não sei amar.

 

Perdi essa enorme capacidade, deslizou por entre os meus dedos sedentos de amor, ano após ano.

Sinto uma rocha no lugar do coração e nem sequer me importo. Eu, que amei toda a vida, que viver sem palpitações não era viver mas morrer devagar ou, simplesmente, existir. Eu, que sofria até à angústia mais profunda, num silêncio tão maior, por um amor não correspondido. Estava viva.

Já não me entristecem os desencontros, já não choro. Já nem sei o sabor de uma lágrima que cai pelo rosto até ao queixo trémulo, deixando para trás os lábios mudos.

Pego num cálice de vinho tinto, que não gosto, e brindo ao vazio do baloiço de jardim onde, vezes sem fim, oscilei. Brindo às histórias que lhe inventei e que secretamente lhe contei em serenos balanços, intermináveis.

Já nada nos une, a mim e ao baloiço. Nem as palavras, pois já nem sei ler, já não sei escrever.

Já não sei amar nem sinto nada.

Deixei de ser eu. Quem ficou no meu lugar, que não conheço, sem pulsar, sem escrever, sem baloiçar?

 

Baloiço, tu que balanças ao vento sem mim, esperas que volte para me contares os segredos que guardaste e eu esqueci?

 

 

 

imagem retirada de: google imagens

por Leonor Teixeira, a Ametista

Certezas e Incertezas

 

Laura carregava em si todas as incertezas, trazia consigo tudo o que não sabia. Só o mar lhe dava respostas a todas as perguntas, conseguia saber o porquê na imensidão do azul das águas revoltas, o porquê de todos os nãos que lhe rasgavam as entranhas como punhais.

Debaixo do sol vermelho libertava-se das armadilhas do destino, nas areias brancas era-lhe devolvida a liberdade. Pelas pradarias coloridas sarava as feridas abertas pelos espinhos dos atalhos obscuros que lhe ardiam na pele, nos montes e vales encontrava a saída do labirinto que a aprisionava, onde se perdia e se esquecia de quem era.

Duarte, por sua vez, tinha todas as certezas do mundo. Sabia os quês de todos os porquês, não tinha dúvidas nem receios. Não precisava dos oceanos nem dos campos, via tudo através das cidades por entre as estações das chuvas. Era racional, mas não tinha liberdade. Não se perdia na identidade, mas escondia-se em alguém que não havia.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

O que sinto cá dentro

 

Um dia disseste-me 'eu não quero atrasar a tua vida'. Não atrasaste. A minha vida foi apenas interrompida, como se um ponto e vírgula deixasse o meu tempo inacabado e não permitisse completar o meu parágrafo, mudar de linha.

Não foste tu. Foi algo superior a ti, uma força desconhecida como aquela que criou a natureza e não conseguiu impedir que a mão do homem a destruísse.

 

Comparação exagerada? Talvez, mas é isto que sinto cá dentro.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

O vazio dos lugares

 

Querido Duarte,

 

O meu amor adormecido despertou, o seu sono inquietou-se, o meu coração afligiu-se ao escutar, à distância, a melodia agridoce da tua voz.

Ausência, senti, uma vez mais como tantas outras nestes últimos quatro anos. Já não sei quem és, pensei, e perguntei-me que foi feito de ti porque não te reconheço. Eu, que esperei por ti todas as horas dos meus dias como se em algum momento fosses voltar. Procurei-te em todos os lugares, imaginei encontrar-te por aí, vi-te surgir nos atalhos.

Sabes? Era a minha ilusão de ver-te chegar a cada instante que me fazia acreditar que irias regressar. Mas tu não estavas. Nem aqui, nem ali, nem perto nem longe, nem em lado nenhum. Simplesmente não estavas.

Eu quis crer que era engano este meu sentimento tão imenso, quase inimaginável, cheguei a acreditar que era mentira este desejo imensurável de querer-te a meu lado, de poder respirar-te, de viver-te. Mas era verdade, era real, tão real que sentia a alma rasgar a cada pensamento de ti. E definitivamente tu não estavas, nunca estiveste. Silêncio, apenas silêncio. Perdi-te no silêncio do (re)encontro; (des)encontro.

Vêm-me à memória lembranças de nós, abraços sentidos e palavras de amor, gestos que não voltaram a repetir-se, jamais se repetirão.

...punhas as mãos na minha cintura, enrolavas-me no teu peito e dizias 'gosto de ti'. Eras tão bonito...

Fui lendo as histórias que retirei do baú de recordações, minhas e tuas, que guardei no tempo que foi nosso. Li e reli, inventei e imaginei, construí e revivi. Foram castelos de sonho que criei, desenhei-os na areia da minha praia mas levou-os o mar, o meu mar azul, em noites de tempestade. Amo-te, dizia baixinho a cada adormecer como se estivesses sempre a meu lado.

Hoje voltei a sentir o pulsar frenético do músculo que me permite respirar, foi intenso o seu disparo que abalou o seu compasso. Tarde, demasiado tarde. Vão, tudo em vão. As horas, os dias, os meses, os anos. A espera.

Quis devorar o mundo, a terra e os céus. Quis aniquilar este amor, esta paixão (sei lá) e renascer das cinzas. Deixei de saber quem sou e onde pertenço, perdi-me na turbulência dos sentidos e fugi de ti, de todos e de mim.

O sonho ruiu, o meu, de mim, de ti, de nós. Desmoronou-se, como um castelo de areia que se desfaz na maré vaza. E eu, em que me transformei? Em sombra, apenas em sombra.

 

Ficou vazio o teu lugar. E o meu.

 

Laura

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Fazes-me falta

 

 

 

Amo-te acima de todas as coisas, mas sinto-me amarrada a um abandono extremo que me rompe as entranhas. A minha alma está despedaçada, quebrou-se ao perder-te à chegada, tu que surgiste no meu caminho sem o destino avisar, tu que me fizeste acreditar que vale a pena esperar pela entrega no seu todo e vivê-la soberbamente porque, disseste-me tu, temos todo o tempo do mundo. Lembras-te? Tu, sim tu, que estás aí do outro lado da ponte que nos separa, tu que me ensinaste a crer que existe uma estrada colorida que nos espera, tu que te repetes no adjectivo linda e te declaras por entre as letras daquele verbo que conjugas na perfeição, me toca na sua profundez e me acelera o coração. Aquela palavra, adoro-te, que é a mais bela de todas as palavras e que eleva todos os sentidos.

E agora estou aqui, perdida na minha embriaguez de viver-te por completo, de tocar a tua pele, de ter-te a meu lado e ficar assim, suspensa num mundo que não é o meu e aqui permaneço, viva para ti, no lugar que é teu mas sem rumo à vista, eu que tanto te choro. E questiono-me, pergunto aos mestres da sorte e do infortúnio, donos dos mistérios da vida a razão deste lamento que me corta o ar e, ao mesmo tempo, me obriga a respirar a todo o custo porque és tu quem quero, és tu que me preenches ou, já nem sei, se não serás a razão deste vazio que tomou posse de mim, da angústia que bateu à minha porta e entrou de rompante sem pedir licença.

O cinzeiro transborda de pontas dos cigarros que já fumei, as garrafas de vinho estão vazias, quem dera que fosse por um brinde entre nós mas que não aconteceu. Afogo-me na tentativa de afastar de mim este engano mas não consigo esquecer que existes, não consigo esquecer o teu nome. E dói-me, dói-me sentir-te por perto e não poder abraçar-te, é uma dor quase insuportável, é como morrer devagar com o remédio mesmo a meu lado e não conseguir alcançá-lo mas não há mais nada que possa minorar este mal, não há nada a fazer. Nada.

Arrancaram as asas da minha libertação, sinto-me prisioneira de um amor morto à nascença, vagueio sem rumo e consigo avistar um túnel mas não tem luz, é escuro como breu, não alcanço mais nada para além de uma lacuna e não há saída. É como estar perdida num labirinto, despida de amor próprio, completamente nua e conseguir ouvir a tua voz ecoar sobre o meu corpo frágil e a rasgar-me ainda mais a alma ferida.

Fazes-me falta. E eu quero gritar e não posso, preciso de gritar e não consigo.

 

 

 

 

imagem retirada de: http://photobucket.com/

por Leonor Teixeira, a Ametista

Eu e as palavras

 

 

 

Estou aqui, sentada frente a um écran que outrora não fazia parte da minha vida e onde agora ficam expressas as minhas divagações, para quem as quiser ler. Lembro-me que escrevia em folhas de papel timbrado ou nas sebentas da escola, umas vezes com lápis outras com esferográfica. Podia ser azul, preta ou encarnada, o importante era que escrevesse e assim nasciam as letras e eu escrevia, escrevia sem parar, o meu pensamento flutuava em cada lugar que estivesse, tudo eram palavras que irrompiam e iam ficando desenhadas em rascunhos.

Ainda hoje guardo todas as folhas em que deixei escritos devaneios e desabafos, estão hoje amarelecidas como as antiguidades que se guardam num sótão qualquer, amarelecidas como o tempo vai deixando as nossas vidas.

Acendo um cigarro, eu não queria fumar aqui mas o frio está cortante na minha varanda com vista sobre a cidade e dentro de casa há um aconchego que me prende, mesmo que amarelecidas fiquem as paredes deste recanto onde a música não pára de tocar e o relógio de parede se repete no seu compasso apressado.

Longe vai o tempo em que escrevia até amanhecer, adormecia quando a vida começava lá fora e a agitação das ruas era a minha tranquilidade. Refugiava-me no conforto dos lençóis e ia acordando, ora com a chuva a cair nas pedras da calçada ora com raios de um sol caloroso, enquanto as palavras surgiam subitamente no meu pensamento e me levantava para deixá-las escritas, não fosse eu esquecê-las durante o sono, sentir a minha imaginação em branco ao acordar.

Fui deixando escritos, ao longo dos tempos, sentimentos de alma, esboços de uma vida, aqueles que se choram e deixam saudade. Histórias, memórias, momentos, sonhos que foram ficando guardados, uns na gaveta envoltos num laço de cordel outros nas páginas do meu Danças em Silêncio, espero que para sempre.

 

Cúmplices. Eu e as palavras.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Vazio de Nós...?

 

13 de Julho de 2010. 18,55h.

 

Perco-te nas horas, há um vazio que me deixas. Partes num silêncio absoluto, deixas-me na ausência que me trazes para ficar.

O tempo ensina-me a cada hora dos meus dias que não há nada para nós para além do vazio que me confias.

Fiquemos, então, assim. Não há espaço para nós dois no mesmo mundo. Só a distância nos é permitida, tão perto que estamos um do outro, tão longe que nos encontramos, afinal.

Invento-te neste mistério que nos impõe um muro intransponível que sinto, oh se sinto, jamais será derrubado.

Quero decifrar este enleio de dúvidas que me cegam.

O tempo não nos pertence, não a nós. Fica o que restou, utopia incontornável, viagem sem regresso que se dá, turbilhão de emoções em mim contidas.

Eu sou o sol e a lua que se beijam, o céu e o mar que se tocam num fim de tarde pintado de mil cores. Tu és, não sei, o cinzento dos dias que me cercam, a chuva a cair numa noite fria.

A minha alma está vazia. Mas continuo a amar-te. Sim, amo-te perdidamente, não tenho medo de o confessar. Consegues ouvir-me?

 

 

4 de Agosto de 2010. 01,45h.

 

Hoje, ouvi a tua voz. Tive vontade de ir ao teu encontro, abraçar-te, pedir-te para ficar.

Queres voar comigo? Voar para lá do vento, entre o sonho e o que ficou por inventar? Queres descobrir comigo as cores do arco íris e pintar as nossas vidas de aguarela?

Ficaria tudo tão suave, as nossas almas sentiriam a liberdade que nos foi proibida.

E aí, no mundo por nós construído, tão belo quanto a natureza que nos envolve, poderíamos atingir a plenitude de uma felicidade impossível de alcançar.

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

    Não adianta muito, porque há quem não respeite. E ...

  • Anónimo

    Tenho o livro " Asas perdidas " de sua autoria e g...

  • Ametista

    O que se consegue fazer hoje em dia...Beijinho

  • Happy

    O desenho é fantástico!

  • Ametista

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