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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Fazes-me falta (uma história piegas)

Amo-te acima de todas as coisas, mas sinto-me amarrada a um abandono extremo que me rompe as entranhas.

A minha alma está despedaçada, quebrou-se ao perder-te à chegada, tu que surgiste no meu caminho sem o destino avisar, tu que me fizeste acreditar que vale a pena esperar pela entrega no seu todo e vivê-la soberbamente porque, disseste-me tu, temos todo o tempo do mundo. Lembras-te?

Tu, sim tu, que estás aí do outro lado da ponte que nos separa, tu que me ensinaste a crer que existe uma estrada colorida que nos espera, tu que te repetes no adjectivo bonita e te declaras por entre as letras daquele verbo que conjugas na perfeição, me toca na sua profundez e me acelera o coração. Aquela palavra, adoro-te, talvez a mais banalizada mas a mais bela de todas as palavras e que eleva todos os sentidos.

E agora estou aqui, perdida na minha embriaguez de viver-te por completo, de tocar a tua pele, de ter-te a meu lado e ficar assim, suspensa num mundo que não é o meu e aqui permaneço, viva para ti, no lugar que é teu mas sem rumo à vista, eu que tanto te choro. E questiono-me, pergunto aos mestres da sorte e do infortúnio, donos dos mistérios da vida, a razão deste lamento que me sufoca e, ao mesmo tempo, me obriga a respirar a todo o custo porque és tu quem quero, és tu quem me preenche ou, já nem sei, se não serás a razão deste vazio que tomou posse de mim, da angústia que bateu à minha porta e entrou de rompante sem pedir licença.

O cinzeiro transborda de pontas dos cigarros que já fumei, as garrafas de vinho estão vazias, quem dera que fosse por um brinde entre nós mas que não aconteceu. Afogo-me na tentativa de afastar de mim este engano mas não consigo esquecer que existes, não consigo apagar o teu nome. E dói-me, dói-me sentir-te por perto e não poder abraçar-te, é uma dor quase insuportável, é como morrer devagar com o remédio mesmo a meu lado mas não conseguir alcançá-lo e não há mais nada que possa minorar este mal, não há nada a fazer. Nada.

Arrancaram as asas da minha libertação, sinto-me prisioneira de um amor morto à nascença, vagueio sem rumo e consigo avistar um túnel mas não tem luz, é escuro como breu, não alcanço mais nada para além de uma lacuna e não há saída. É como estar perdida num labirinto, despida de amor próprio, completamente nua e conseguir ouvir a tua voz ecoar sobre o meu corpo frágil e a rasgar-me ainda mais a alma ferida.

Fazes-me falta. E eu quero gritar e não posso, preciso de gritar e não consigo.

 

  

(Texto escrito em 5 de Dezembro de 2010, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Esquecer, renascer

 

Um dia, quero morrer contigo.

Quando subires aos céus e chegares às estrelas, perto do sol e da lua, quero estar a teu lado para, finalmente, renascer.

Hoje a minha alma jaz na velha casa em ruínas, outrora nossa, o meu corpo vagueia pelas ombreiras das portas. As janelas batem nos parapeitos com o vento que sopra voraz, das prateleiras empoeiradas caem os livros antigos que lemos, são iguais às nossas vidas. Há folhas que se soltam do diário da nossa história, espalham-se pelo chão que range a cada passo que dou. É como as horas dos dias que nos pertenceram, perderam-se num momento intemporal.

E eu abandono-me. Abandono-me silenciosamente, fujo do passado em direcção incerta, alcanço o barco onde navegámos sem rumo e que morre agora em terra firme depois da procura de um rio que corre turvo. Não consigo tocar nas suas águas, parecem bolas de neve que se desfazem ao passar.

Recuso-me respirar, suspiro como que pela última vez, sinto-me perto do que não cheguei a conquistar. Onde ficaste, alma que se perdeu por atalhos obscuros, em estradas sem saída? Até no final se repete o desencontro, o nosso, como duas sombras que se cruzam, desconhecidas.

Apagam-se as luzes, desvanecem as cores, tudo se torna escuro e tu ficas fantasma da velha casa. Eu, parto solitária no instante em que te esqueço e caminho numa nuvem que desceu à terra.

 

Por enquanto, estou viva.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Não percebo, juro que não percebo

 

Depois do reencontro repleto de abraços e lágrimas de saudade, gestos de carinho e confissões de amor num tempo perdido, ele deu-lhe um beijo e disse: Gosto de ti. E ela perguntou: Gostas mesmo? Então, porque é que não lutaste por mim?

Porque gosto das duas, respondeu ele num sorriso embaraçado(?). Ela fixou-o nos olhos durante alguns minutos sem pestanejar, soltou uma gargalhada meio irónica meio incrédula e abriu a porta de casa como que a convidá-lo para sair. E ele saiu.

 

Dá para perceber?

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Fazes-me falta

 

 

 

Amo-te acima de todas as coisas, mas sinto-me amarrada a um abandono extremo que me rompe as entranhas. A minha alma está despedaçada, quebrou-se ao perder-te à chegada, tu que surgiste no meu caminho sem o destino avisar, tu que me fizeste acreditar que vale a pena esperar pela entrega no seu todo e vivê-la soberbamente porque, disseste-me tu, temos todo o tempo do mundo. Lembras-te? Tu, sim tu, que estás aí do outro lado da ponte que nos separa, tu que me ensinaste a crer que existe uma estrada colorida que nos espera, tu que te repetes no adjectivo linda e te declaras por entre as letras daquele verbo que conjugas na perfeição, me toca na sua profundez e me acelera o coração. Aquela palavra, adoro-te, que é a mais bela de todas as palavras e que eleva todos os sentidos.

E agora estou aqui, perdida na minha embriaguez de viver-te por completo, de tocar a tua pele, de ter-te a meu lado e ficar assim, suspensa num mundo que não é o meu e aqui permaneço, viva para ti, no lugar que é teu mas sem rumo à vista, eu que tanto te choro. E questiono-me, pergunto aos mestres da sorte e do infortúnio, donos dos mistérios da vida a razão deste lamento que me corta o ar e, ao mesmo tempo, me obriga a respirar a todo o custo porque és tu quem quero, és tu que me preenches ou, já nem sei, se não serás a razão deste vazio que tomou posse de mim, da angústia que bateu à minha porta e entrou de rompante sem pedir licença.

O cinzeiro transborda de pontas dos cigarros que já fumei, as garrafas de vinho estão vazias, quem dera que fosse por um brinde entre nós mas que não aconteceu. Afogo-me na tentativa de afastar de mim este engano mas não consigo esquecer que existes, não consigo esquecer o teu nome. E dói-me, dói-me sentir-te por perto e não poder abraçar-te, é uma dor quase insuportável, é como morrer devagar com o remédio mesmo a meu lado e não conseguir alcançá-lo mas não há mais nada que possa minorar este mal, não há nada a fazer. Nada.

Arrancaram as asas da minha libertação, sinto-me prisioneira de um amor morto à nascença, vagueio sem rumo e consigo avistar um túnel mas não tem luz, é escuro como breu, não alcanço mais nada para além de uma lacuna e não há saída. É como estar perdida num labirinto, despida de amor próprio, completamente nua e conseguir ouvir a tua voz ecoar sobre o meu corpo frágil e a rasgar-me ainda mais a alma ferida.

Fazes-me falta. E eu quero gritar e não posso, preciso de gritar e não consigo.

 

 

 

 

imagem retirada de: http://photobucket.com/

por Leonor Teixeira, a Ametista

Vazio de Nós...?

 

13 de Julho de 2010. 18,55h.

 

Perco-te nas horas, há um vazio que me deixas. Partes num silêncio absoluto, deixas-me na ausência que me trazes para ficar.

O tempo ensina-me a cada hora dos meus dias que não há nada para nós para além do vazio que me confias.

Fiquemos, então, assim. Não há espaço para nós dois no mesmo mundo. Só a distância nos é permitida, tão perto que estamos um do outro, tão longe que nos encontramos, afinal.

Invento-te neste mistério que nos impõe um muro intransponível que sinto, oh se sinto, jamais será derrubado.

Quero decifrar este enleio de dúvidas que me cegam.

O tempo não nos pertence, não a nós. Fica o que restou, utopia incontornável, viagem sem regresso que se dá, turbilhão de emoções em mim contidas.

Eu sou o sol e a lua que se beijam, o céu e o mar que se tocam num fim de tarde pintado de mil cores. Tu és, não sei, o cinzento dos dias que me cercam, a chuva a cair numa noite fria.

A minha alma está vazia. Mas continuo a amar-te. Sim, amo-te perdidamente, não tenho medo de o confessar. Consegues ouvir-me?

 

 

4 de Agosto de 2010. 01,45h.

 

Hoje, ouvi a tua voz. Tive vontade de ir ao teu encontro, abraçar-te, pedir-te para ficar.

Queres voar comigo? Voar para lá do vento, entre o sonho e o que ficou por inventar? Queres descobrir comigo as cores do arco íris e pintar as nossas vidas de aguarela?

Ficaria tudo tão suave, as nossas almas sentiriam a liberdade que nos foi proibida.

E aí, no mundo por nós construído, tão belo quanto a natureza que nos envolve, poderíamos atingir a plenitude de uma felicidade impossível de alcançar.

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Pedido sem sentido

 

Querido Duarte,

 

Ontem, pediste-me para ficar. Mas eu saí apressada, na minha condição de não voltar. Caminhei sem rumo, perdi-me nas horas. Sentei-me junto ao rio que passa no jardim onde deixei guardados pedaços da minha felicidade. Lá, bem perto do céu, senti a luz do sol afagar-me o rosto ao mesmo tempo que a chuva caía sem cessar sobre o meu corpo. O vento insistiu em trazer consigo as palavras que disseste antes de partir. Gosto de ti, sussurraste. Mas eu saí sem olhar para trás. Esqueci o beijo que não demos, aquele que me pediste baixinho mas que não conseguiste roubar-me. Lembras-te?

'Não me afastes assim da tua vida'.

Sabes? As palavras também nascem, crescem, vivem e morrem.

E a chuva e o vento persistem em ficar.

 

Laura

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Reencontro

 

Querido Duarte,

 

Queria escrever-te mais uma carta mas, desta vez, sem falar de corações destroçados, de sentimentos desencontrados. Queria escrever-te uma carta, sim, mas construída de palavras doces e coloridas, sem mágoas e lágrimas.

Não quero histórias sobre confissões do que senti por ti, dos gritos silenciosos de um amor que durou demasiado tempo, tanto que não sei quanto. Não quero histórias que ficaram entre o partir e o ficar, sem princípio, meio e fim.

Sabes? Gostaria de falar-te de outras coisas. De sonhos, de desejos, de fantasias que foram preenchendo as horas dos meus dias.

Gostaria de falar-te da beleza que ficou por descobrir, dos passeios que ficaram por concretizar, do tanto que tivemos por inventar, das coisas mais simples da vida que deixámos por partilhar.

Queria dizer-te, até, que poderíamos ter alcançado o inatingível. Sabes que através dos sonhos tudo se torna possível? O nosso imaginário consegue chegar até onde a nossa alma nos levar. E tudo se torna tão bonito.

Posso contar-te que, juntos, já caminhámos à beira mar numa praia deserta, contemplámos o por de sol num fim de tarde de verão sentados na areia. Mergulhámos, lado a lado, numa onda branca e conseguimos chegar perto dos mais belos corais no fundo do mar. Depois de admirarmos um mundo de mil cores onde se respira natureza pura, nadámos de mãos dadas até à superfície dos oceanos. Para lá das águas cristalinas, sentimos o sol de um dia acabado de nascer que nos iluminou o rosto. Lembras-te da nossa dança na praia? Aquela que ficou por inventar? Conseguimos ondular os nossos corpos e enlaçámo-nos numa agitação lenta dos sentidos. À nossa volta, o som do mar cruzou-se com o cântico das gaivotas e, antes de partirmos, desenhámos o nosso nome na areia. Sabes? Ainda sinto o sabor a sal que ficou na nossa pele.

Juntos, percorremos estradas limpas e frescas, caminhámos devagar por entre montes e vales, saltámos nas pradarias. No final, descansámos abraçados debaixo de uma árvore no bosque secreto que guardou os nossos beijos. Consegues sentir o aroma das flores campestres? Tenho uma guardada nas páginas do livro que escrevi para ti.

Gostaria de falar-te do quanto acreditei que tudo poderia ser possível. Da esperança de ver-te chegar com uma rosa vermelha na mão e um brilho no olhar. Dos teus braços abertos para me levarem até ao mais alto dos rochedos e, de lá, admirar contigo a mais sublime das paisagens. Das semanas a viver-te por completo, dos meses de partilha, dos anos a teu lado com sorrisos.

Queria pegar nas palavras que te escrevi e declamar-tas num poema eterno. Queria recitar-te, num cenário de neve a cair numa noite de dezembro, o que a minha alma viveu por nós.

Gostaria finalmente de confessar-te que, ao reencontrar-te, senti confiança. Coragem para gastar a minha voz num grito e exclamar, de coração aberto, que renasceu a minha capacidade de lutar. Lutar, mas desta vez, por mim. Porque agora, mais do que nunca, quero recuperar a minha liberdade. A de ser feliz. Concedes-me esse direito?

 

Laura

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Às vezes

 

Às vezes, sinto medo.

Medo de não ter tempo. Tempo para viver a minha história, aquela que inventei para mim.

Não tenho medo da solidão, porque nunca estarei completamente só. Há anjos que me envolvem a alma, há uma imensidão de palavras que me rodeiam e vou voando por entre o meu imaginário.

Mas, mesmo assim, por vezes sinto medo. Medo de não conseguir voltar a encontrar-te. Medo de não poder dizer o que está guardado num baú cheio de ti, onde habita a tua imagem, onde mora o que não chegaste a ser.

Mas, às vezes, sinto esperança. Esperança de voltar a ver-te, sentir-te perto, de olhar-te nos olhos, poder tocar o teu rosto, de abraçar-te.

Outras vezes, tudo se desvanece. O medo e a esperança. Deixo de ter medo, mas foge-me a esperança. E embrulho-me num misto de verdade e mentira, numa contradição de ter medo e não ter, de ganhar esperança e perdê-la.

Tantas outras vezes me pergunto o que fomos noutra vida, o que nos separou e o que nos fez reencontrar. E não há respostas, mas existem os sentidos. Sentidos que me fazem acreditar às vezes e, outras vezes, desacreditar.

Por vezes, anseio ir ao teu encontro. Umas vezes, o vento empurra-me para trás e não me deixa prosseguir. Outras vou em direcção a ti mas, quando chego ao teu lugar, acabaste de partir.

Às vezes choro, outras tantas rio. Às vezes falo e outras fico calada. E tantas vezes escrevo para ti, tantas vezes grito por entre palavras vãs. Tantas outras me deixo ficar na dança do meu silêncio.

Tantas vezes, quase todas, perco o tempo a pensar em ti e tantas outras me perco no tempo por um pensamento de ti.

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Encontro desencontrado

A campainha tocou naquele fim de tarde de Julho. Laura abriu a porta e Duarte entrou. Olharam-se durante breves instantes e acabaram num abraço de saudade, longo e apertado.

 

- Que linda.. - disse Duarte numa expressão ternurenta.

- Obrigada - respondeu Laura.

- A casa... mas tu também... - retorquiu Duarte com aquele sorriso matreiro que lhe era peculiar.

Laura acompanhou-o até à sala e sentou-se. Parecia manifestar uma certa timidez mas, ao encostar-se comodamente no sofá, começou a declarar a razão da sua visita.

- Estar aqui é um sonho tornado realidade.

- É verdade o que me dizes ou brincas, como sempre o fizeste?

- Preciso dizer-te a verdade. Fazes ideia de quanto tempo esperei por este momento?

- Não calculo e não consigo sequer imaginar. Este momento parece-me surreal. Mas fala, então.

- Sabes que há muitos anos, era eu miúdo, achei-te linda quando te vi pela primeira vez. E o meu coração bateu.

- Apesar de me parecer impossível, é quase inacreditável que só mo digas agora.

- Naquela tarde estava sol. Recordo-me como se fosse hoje. Estava sentado numa mesa da esplanada da praça... aquela que costumavas frequentar...

- Lembro-me que ia sempre a essa esplanada nos fins de tarde...

- Tu chegaste, alegre e descontraída como sempre, acompanhada de uns amigos que eu também conhecia. Aproximaste-te e sentaste-te.

- É natural. Sempre fui assim, bem disposta. E disse boa tarde com certeza. Digo sempre.

- Disseste. Mas não olhaste para mim. Nunca olhaste.

- É provável. Eras mais novo.

- Sim, era novo e idiota como os miúdos daquela idade. Tu, mais velha e madura, como poderias olhar para mim?

- Tens razão. Não olhei para ti. Não naquela altura. Mas uns anos mais tarde, não me foste indiferente.

- Já lá vão alguns anos, sim. Mas sempre que me aproximava, tu fugias.

- Verdade seja dita. Eu fugia mesmo. Porque quando te encontrei ao fim de tanto tempo e te vi a sorrir para mim, o meu coração bateu mais forte.

- E que razão era essa que te fazia fugir de mim?

- A minha razão. Afastar-me de ti seria a melhor atitude para contrariar o sentimento que começava a germinar dentro de mim...

- Sabes, já passaram muitos anos depois daquela tarde. E outros tantos depois do nosso reencontro. Agora, sou aquilo que vês e já não tenho tempo...

- E eu sou aquilo que sempre fui, apesar das mágoas que foram surgindo ao longo do meu percurso.

- E o destino mudou o rumo à minha vida.

- Não alterou apenas o rumo da tua vida. O destino desviou os nossos caminhos. Existe alguma força superior que não quer que nos juntemos. Lamento por ti, lamento por mim. Lamento por nós.

- Eu também. Muito mesmo.

- És feliz, por acaso? - perguntou Laura sem pensar.

- Tento ser.

- Desculpa dizer-te, mas se tentas ser é porque não o és. Não na sua verdadeira essência.

- Tenho alturas em que sou.

- Tens momentos, o que é demasiado importante. Posso, então, confessar-te uma coisa?

- Sim, podes e deves.

- Foste o meu príncipe encantado. Terias sido até sempre. Foste o homem que quis para ficar a meu lado. Mas transformaste-te num sapo - soltei um riso suave.

- Se pudesse, mudava-me hoje mesmo para aqui, mesmo sendo um sapo - sorriste.

- Nunca. Não quero partilhar o meu espaço com ninguém. As relações saudáveis já não existem. O namoro é mais duradouro, aquele em que cada um vive na sua própria casa.

- Mas estar aqui contigo faz-me esquecer o mundo lá fora. Se bem que agora é tarde.

- Posso perguntar-te porque é que não lutaste por mim, já que o que sentias era assim tão imenso?

- Porque sabia que iria ser em vão.

- Nada é em vão. Há que tentar conquistar quem para nós é deveras importante.

- Não conseguiria. Como já disse, nem para mim olhavas. Eu para ti não existia.

- Disseste há pouco que agora é tarde. Mas nunca é. Não para tentar recuperar o que se perdeu. Não para se ser feliz. Mas, neste caso, até és capaz de ter razão. Provavelmente, é mesmo muito tarde.

- Sim, o nosso encontro chegou a más horas e nada entre nós vai ser possível.

- Sensato da tua parte. Além disso, a nossa diferença de idades é grande e depois eu ficava velhinha. Já tu... - Laura brincou com uma tristeza no sorrir.

- Poderias até ter setenta anos, que eu iria sentir por ti a mesma coisa... - disse Duarte com uma lágrima no olhar.

- Sempre gostaste de brincar - disse Laura com um nó na garganta.

- Não chores agora, por favor - pediu Duarte, com um sorriso triste.

- Não...

- Eu tinha de dizer-te tudo isto, fosse em que altura fosse e em que dia fosse. E foi hoje.

- Mas porquê tantos desencontros? Temos estado tão perto um do outro e ao mesmo tempo tão longe. Porque é que a vida é tão cruel?

- Não sei.

- Podíamos ter ficado juntos. Podíamos ter sido felizes...

- Podíamos, dizes bem. Porque eu não tenho nada para te dar...

- ... - Laura não conseguiu proferir uma palavra.

- Tenho de ir trabalhar. A minha hora de jantar já terminou. - disse Duarte ao olhar para o relógio.

- Mas não jantaste...

- Tinha de falar contigo. E poderia não ter tempo noutro dia qualquer.

- Já vais, então..

- Sim...

 

Laura acompanhou-o até à porta e o seu abraço repetiu-se, desta vez menos longo e mais suave. Ao vê-lo sair teve a certeza de que, depois de tantos desencontros entre ele e ela, um encontro como aquele não voltaria a repetir-se.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Encontros e desencontros

Cruzo-me contigo pelas ruas da cidade. Passas apressado numa condução veloz, ligas as luzes de emergência e fazes soar o alarme. Salvas vidas, extingues incêndios, ajudas crianças a nascer em plena viagem. Há pessoas feridas que te deixam uma palavra de apreço e lavas-te em lágrimas por uma perda humana. Sais à pressa para mais um incêndio e eu vejo-te partir com furor. Permaneço na esperança de que fiques a salvo, mas tu não sabes que rezo por ti.

Combates as chamas que lavram as matas, incendeias a alma por entre o arvoredo que teima em queimar. Salvas do fogo animais perdidos que te lambem o rosto em sinal de gratidão.

Regressas exausto de mais uma luta e soltas um sorriso para ninguém perceber. Observo-te através da vidraça e vejo-te conversar com pessoas encontradas ao acaso. E eu estou ali, tão perto de ti, mas tu não sentes a minha presença. Contemplo-te num disfarce veloz na esperança de alcançar um sinal, mas tu não me vês. Vou até junto de ti, mas quando chego está apenas o lugar que deixaste ficar.

Cruzas-te comigo pelas ruas da cidade. Passas por mim no teu andar compassado  e aprontas-te para mais uma batalha. Os nossos rostos encontram-se, trocam-se os olhares, mas nenhum de nós pára para estender a mão. Quero aproximar-me, partilhar a minha vida com a tua, mas há uma distância que nos separa. Imagino o que poderíamos ser e as palavras ficam guardadas em silêncio. Sei quem és, mas não sei o que sentes. Sabes quem sou, mas não me conheces.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

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comentários arrecadados

  • Closet

    ohhh que nostalgia me deu hoje e encontro-te aqui ...

  • Ametista

    É verdade... e que 'velha guarda'. Era maravilhoso...

  • green.eyes

    Eu acho que 95% da "velha guarda" foi embora…Do no...

  • Ametista

    Ficava aqui para sempre, acreditas? Mas há amigos ...

  • green.eyes

    Já não aparecias a tanto tempo, que já pensava que...

esconderijos do sótão

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