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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Mudar de vida, viver com um sonho

 

Há sonhos que se lembram por breves instantes e há os que ficam para sempre.

Laura recorda-se de um sonho que teve, talvez o mais sombrio de todos os que traz na memória. Ou o mais desejado, porque consegue ser um pouco feliz ao revivê-lo.

Todas as manhãs, bem cedinho, um denso nevoeiro encobria os raios de sol que incidiam, pálidos, sobre uma floresta encantada que guardava uma pequena cabana desabitada, feita de ébano.

Por entre as folhas vermelhas e douradas caídas sob numerosos plátanos e faias que se beijavam Laura percorria os caminhos, os cantos e recantos daquele lugar sedutor. Descalça e envolta num manto branco, parava à porta da cabana e ouvia um choro de criança mas não conseguia entrar. Um corvo cantava por perto, deitava-se num suspiro, e um lobo uivava ao longe pelo dia que acabava de nascer. Tudo lhe parecia misterioso mas mágico.

Presas aos troncos mais robustos baloiçavam cartas de amor, imensas, umas dela outras de Duarte. Um dia, na alvorada, pegou em duas delas, tocou-as numa carícia e leu-as em voz alta a olhar para o céu por entre os ramos. Teve uma sensação etérea, algo surreal, do tão genuínas que eram as palavras que ficaram.

'Ainda hoje me declaro a ti como se fosse morrer amanhã, confesso-me nestas folhas de papel que vou amarrotando a cada linha que encho de letras. Tenho medo que não me oiças se tas disser, por isso escrevo na esperança de que me leias e talvez assim consigas sentir e perceber, finalmente, a razão do meu silêncio. Porque é assim que te amo. Em silêncio. Laura.'

'E é assim que eu te sonho. A passeares pela floresta, descalça e vestida de branco, a correr até à única toca que nos sorri e eu a encolher-me no teu colo para nos escondermos naquele sítio tão pequeno e secreto, tão nosso e demasiado longe da vida real. Sei que ficarás para sempre nesse bosque e é assim que te lembro. Duarte.'

Laura queria permanecer entre a verdade e a mentira, a saudade e a ausência dos momentos como uma boneca de cera, sem alma nem coração. Queria deixar-se estar, inerte, envolta em folhas de papel onde as palavras não cabiam, entre canetas e lápis que não escreviam. Com livros, muitos livros em branco e cartas de amor vazias que se espalhavam pela floresta encantada, onde o sol desmaiava nas manhãs e o nevoeiro angustiava o cair das noites.

Sentiu-se despertar debaixo de um abeto branco, o único no meio do extenso arvoredo. A seus pés, uma lamparina dourada brilhava, começava a ganhar vida e transformou-se. Um feiticeiro surgiu, com rosto de lobo e asas de corvo, sorriu-lhe e disse: 'A minha filha nasceu ontem e eu dei-lhe o teu nome'.

 

Laura não voltou a vê-lo.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

A Floresta

Foi na floresta que encontrei o segredo da amizade.

Sempre que subo àquela árvore tu estás lá, à minha espera. Um homem pequenino, com alma de criança e coração de anjo.

Conheci-te naquela manhã de Outono. O solo estava coberto de folhas caídas e tu surgiste por entre as árvores gigantescas daquela floresta mágica. Lembro-me que cantarolava saltitante e, ao ver-te, parei assustada. Mas o teu sorriso bondoso de menino fez-me sentir um certo fascínio e fui ao teu encontro.

Estendeste-me a mão e subimos à árvore mais alta.

Constaste-me a tua história, falaste-me das tuas raízes, disseste-me que não tinhas amigos e que te sentias só, que não podias apaixonar-te porque nunca irias crescer. Eu confessei-te que, ao contrário de ti, não queria crescer porque era feliz enquanto criança.

Perdemo-nos nas horas, do tanto que conversámos.

Desde esse dia, nunca mais nos separámos. Encontramo-nos, em segredo, pela manhã até ao anoitecer. Na mesma árvore falas-me de ti, eu conto-te as minhas histórias e, juntos, admiramos a magia da floresta.

No fim de contarmos os nossos segredos damos as mãos, soltamos beijos e abraços. Descemos a árvore e corremos pela floresta até nos cansarmos.

Quando chega a hora da despedida, dizemos um ao outro:

- Amigos, até sempre. Boa noite.

Os anos passam e continuo a ir à floresta todos os dias. Saio de casa antes do amanhecer para, juntos, vermos o sol nascer. Assistimos ao crescer do dia e despedimo-nos quando a lua ilumina o nosso lugar.

Somos os maiores amigos de todo o sempre. Inquebrável o nosso sentimento valioso, fruto de um encontro marcado pelo destino numa floresta encantada.

Através de uma amizade genuína, aprendemos a acreditar que nunca estaremos sós. Tu, um menino que não conseguiu crescer. Eu, uma menina que nunca quis deixar de ser criança.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • DyDa/Flordeliz

    Já estive aqui .Li, e...Parti. Faltaram-me palavra...

  • Ametista

    Obrigada, Green Beijinhos

  • green.eyes

    As saudades que eu tinha dos teus textos …Beijinho...

  • Ametista

    Obrigada, Gaffe, pela visita. E sim, um sótão acon...

  • Gaffe

    Às vezes, um sótão luminoso como este, substitui o...

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