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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Dos sonhos

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(Imagem retirada de: google imagens)

 

- Não desistas dos teus sonhos. Corre atrás deles até não poderes mais. Nunca te acomodes só porque a vida te tornou confortável. Assim, um dia vais chorar por um aconchego que não te oferece a felicidade que tanto anseias. Preferível ser feliz mesmo sem conforto do que amparada mas amargurada.

- Sim, mãe. Tens razão. Mas haverá razão para eu sonhar, se a vida é tão frágil e o mundo me parece tão pequeno? Onde caberei eu e todos os meus sonhos?  Mãe, haverá lugar para mim no universo?

- Lugar há, minha querida. Não sei é se conseguirás, um dia, reclamá-lo como sendo teu.

por Leonor Teixeira, a Ametista

Dia Internacional dos Ciganos - 8 de Abril

'Ciganos. E mais uma vez a minha raiz humana estremeceu. São eles que me dão sempre a medida absoluta da liberdade que não tenho e por que suspiro. Anarquistas em espírito e corpo, lembram-me príncipes do nada, milionários do desinteresse, sacerdotes da preguiça, ampulhetas obstinadas onde o tempo não se escoa.'

Miguel Torga. in Diário VII, 1954

 

 

Ciganos. São eles e a sua rumba flamenca, que lhes pertence, que me oferecem o desejo de dançar até sempre nas areias. Trago na minha mala de viagem, bem guardados, o tom ondulante das vozes, os dedos agitados nas guitarras e o frenesim do ritmo dos corpos. Quando os lembro, sinto a essência da profunda liberdade.

 Leonor Teixeira

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Para sempre na lembrança

 

Lembro-me das avenidas e das vielas. Tinham cor. Lembro-me das casas, das ladeiras e escadarias. Tinham harmonia. Lembro-me do paredão com gentes a passear, alegres e saltitantes. Lembro-me das conversas de esplanada, dos sorrisos e gargalhadas. Lembro-me da areia beijar os passeios, das árvores plantadas à beira estrada pedirem para crescer.

Lembro-me do cheiro a peixe fresco, dos pescadores e das varinas nas manhãs, das crianças brincarem à beira mar. Lembro-me da roupa estendida nos varões, das janelas abertas de par em par e das varandas soalheiras em fins de tarde.

Lembro-me da neblina esconder a igreja do largo e da chuva quente regar os pés descalços. Lembro-me das toalhas esvoaçarem com o vento norte, dos cabelos se emaranharem nos rostos bronzeados.

Lembro-me dos banhos de mar ao por de sol. Da nudez sem vergonhas, da espontaneidade e genuinidade de quem ficava para assistir ao cair da noite. Não havia saudade e ninguém chorava, as lágrimas caíam nos rostos de quem ria sem parar. Lembro-me do brilho no olhar pelas cumplicidades e das confidências que se liam nos gestos mudos. Lembro-me das mãos que se davam, dos abraços que se colhiam, da ausência das palavras e dos rasgos dos sorrisos. Eram orações perpétuas.

Lembro-me da animação dos jantares, da descontração à hora do café e da camaradagem plena pelas noites dentro. Lembro-me da música purple rain e de extasiar ao ouvi-la por entre a multidão a cantar.

Lembro-me do ruído do mar nas madrugadas, chorava a cantar até ao amanhecer. Eu adormecia no seu pranto sob o céu estrelado, à entrada de uma tenda ali tão perto.

O silêncio. Lembro-me do silêncio. E do movimento. Das danças no areal ao som de rumba flamenca, da maresia a salpicar-me os lábios e da frescura da areia no meu corpo. Lembro-me da lua abraçar as ondas e de tudo ficar azul.

Lembro-me dos brindes à amizade. Eram feitos em qualquer lugar, nas tascas, nas tendas, nas dunas. As dunas. Lembro-me de corrermos ao subi-las e de descê-las às cambalhotas vezes sem conta sem cansaço. Lembro-me da sensação de liberdade quase etérea que a brandura da areia fina nos deixava na pele. Lembro-me das aventuras, lembro-me de me esquecer do resto do mundo.

Lembro-me das fotografias que ficaram e que guardo docemente em álbuns de recordações. São tantos os lugares, tão intensos os momentos. Lembro-me de todos eles.

Lembro-me mas, porém, receio esquecer-me. Receio que as imagens se tornem baças e já não veja beleza nos dias. Que os veja empalidecer, que os sinta esvaziar. Tenho medo. Medo que tudo acabe. Os sorrisos, as gargalhadas, a suavidade dos passos na calçada, as danças na praia, as cores.

E eu me confesso à vida, como escrevi um dia. À vida, que passa apressada numa correria incessante:

'Ainda hoje me declaro a ti como se fosse morrer amanhã, confesso-me nestas folhas de papel que vou amarrotando a cada linha que encho de letras'.

Não quero amarrotar as folhas de papel. Quero ir em busca das letras, arrancar a narrativa de cada instante e viajar nas palavras.

Não consigo separar-me das memórias. Quero cantá-las a dançar na areia da praia onde fui feliz.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Liberdade, preciso.

 

Sinto o meu pequeno mundo escorregar por entre os meus dedos cansados dos nós da revolta. Aquele mundo à parte deste em que vivemos, adúltero, hipócrita, egoísta, injusto.

Tenho na palma da mão um bilhete de regresso aos dias completos de sorrisos genuínos e abraços sentidos, verdades expostas e mentiras ausentes. Mas não consigo alcançar a força extrema de que necessito, receio não conseguir agarrá-la de mãos bem cerradas para que não me caia aos pés. Tenho medo que se escape deste chão que me aprisiona o corpo e não me deixa abandonar este cenário, mórbido e sombrio.

Sim, quero ir. Libertar-me das amarras que me prendem ao que não quero e me é imposto e me rasga a alma até sangrar.

Quero tirar os pés desta terra empoeirada, esquecer o lado de cá da vida, subir à árvore outonal mais alta do bosque mais longínquo, esperar com ela o desabrochar das folhas e enfeitar de balões coloridos os ramos primaveris. E quero sentar-me num galho, livre de deveres e preconceitos, selvagem e indomável, à espera das promessas a florir que me fizeram ficar.

 

O céu é o limite*. Eu quero uma estrela.

 

 

* Citação de Miguel de Cervantes.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Anjo imortal

 


 

Eu queria escrever sobre ti, tu que és imortal mas não existes e que conheço como ninguém.

Caminhas comigo de mãos dadas, beijas-me o rosto a cada mágoa e guardas-me no colo como um anjo. Tu, que vieste de outros tempos, de outras vidas, saboreaste todos os estados de alma e ressuscitaste com honra em cada era.

És tu quem me dá força para prosseguir pelas colinas, aquelas em que tropeço tantas vezes e me fazem ressurgir com um sorriso.

Tens a cabeça no lugar do coração, não sentes, não sofres, não padeces. A prudência é o teu guia, ages sem qualquer impulso que te arraste para a terra das angústias que se choram, onde se mata a sede no derramar das lágrimas.

Não sabes a razão de uma queda no abismo, esse lugar tenebroso sem saída. Moras na amplitude de um intervalo, é como a vibração celestial das pradarias sem muros nem pontes, sem portas e sem janelas, aquelas que se trancam para sempre.

Não consigo já viver sem ti, dormes no meu ombro a cada noite fria, o teu sono é como a aragem quente que sopra nos desertos. Tu, que despes a chuva quando cai e a vestes de sol, aquele que inebria o meu leito e me alimenta.

Seduzes-me na tua magia suprema, entrego-me a ti como uma cigana se rende à liberdade, saímos para a rua sob um manto branco e descalços vagueamos no silêncio das estrelas.

Não me fujas, que não sei viver sem ti, meu amparo constante que me eleva na utopia dos dias cinzentos. Leva-me contigo rumo ao arco-íris, faz de mim imortal com um beijo teu.

 

 

 

(A imagem aqui apresentada foi encontrada algures no google e sem autor referenciado. Agradeço a quem a criou que, caso a encontre por aqui, me avise para  lhe dar o devido crédito ou, se assim desejar, retirá-la-ei de imediato.)

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Um dia, quando...

 

Um dia, quando o céu chorar e os anjos caírem eu quero estar lá, bem perto do infinito, para apanhar uma estrela e guardá-la junto à chave que encerrou a minha história.

Um dia, quando se calarem todas as vozes do mundo eu quero estar lá, nos lugares que foram meus, para gritar cada palavra que inventei para o meu último capítulo.

Um dia, quando pararem todos os relógios e o tempo ficar suspenso eu quero estar lá, no vazio das épocas, para suavizar o peso dos anos apressados e a contagem dos dias mortos.

Um dia, quando se aproximarem do fim todas as coisas eu quero estar lá, no princípio do mistério de tudo, onde se erguem as derrotas e das ruínas se elevam vitórias.

Um dia, quando a vida se fundir no silêncio e a morte se cruzar com o sonho eu quero estar lá, no meio das sombras que vagueiam, para submergir nas utopias.

Um dia, quando os lobos uivarem para lá das cidades e um corvo vier, de onde moram os poetas já sem vida, com uma carta escondida na asa assinada por mim, significa que morri.

E nesse dia, quando eu morrer, não quero lágrimas nem luto.

Quero que as almas que ficarem do que restou da glória me lancem em mar alto num verso branco, lá, onde segredo nenhum é desvendado e tudo se transforma em poesia.

E ao longe, bem distante, quero escutar o cântico de um bando de gaivotas a sobrevoar as dunas, no mais sublime sinal de liberdade.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

O nosso bosque

 

 

Desperto de um passado adormecido, sinto na pele um arrepio que se aproxima de mansinho e bate na minha alma docemente. Volto a fechar os olhos, vejo-te a ti e a mim e o nosso mundo ergue-se dos anos perdidos que caíram e renasce.

Vi-te chegar no regresso dos ventos por entre as folhas espalhadas pelo chão, trazidas por um Outono prestes a morrer. Os ramos das árvores tocavam o solo, lembro-me que disseste o quanto gostavas do cheiro a terra molhada e esboçaste um sorriso genuíno, aquele que dá vida ao fim de todas as coisas. Colheste a flor de laranjeira germinada no interior da tulipa vermelha que cultivámos na nossa última Primavera e enfeitaste o meu cabelo no gesto mais ternurento que alguma vez senti.

Vindas de outras estações esvoaçaram borboletas em torno de nós, pousaram nas tuas mãos devagarinho, nas tuas mãos, sim, que tremiam de saudade e foram ao encontro do meu rosto no mais belo resgate de um beijo. Amo-te, disseste, e escreveste essa palavra repetida no tronco da árvore mais robusta do bosque, desenhaste-a na sua raiz de uma forma magistral e sussurraste ao meu ouvido numa respiração suave: Fazemos parte deste bosque e esta é a nossa árvore.

Depois da chuva despontou o sol, era de um rubro tão intenso que mudou a estação e tornou-se Verão. E ali, longe do Inverno agreste que assombrava para lá do nosso bosque, alimentámo-nos dos frutos que brotaram das palavras que declamaste sob os galhos e do silêncio do poema que me ofereceste. Num abraço aquecemo-nos nas flores que desabrocharam fora de tempo, eram mais belas do que as do mês de Março. Acácias e amores-perfeitos, camélias e cravos, crisântemos e dálias, girassóis e orquídeas. Lembras-te?

E assim imortalizámos o nosso amor, transformámo-nos em pássaro, apenas num, levámos nas asas a semente de tudo o que foi nosso, a tulipa e a sua flor de laranjeira, e voámos em liberdade através dos tempos.

 

 


 

Imagem retirada de: http://photobucket.com/

por Leonor Teixeira, a Ametista

Praia, aí vou eu!

Vou estar ausente por uns dias. Apesar do sol querer esconder-se nestes dias que se aproximam, o destino escolhido foi esta praia que amo e me traz saudade. Preciso respirar o mar, sentir os pés na areia e absorver aquele cheirinho do iodo que me acalenta a alma.

 

 

 

E nada melhor do que ter a companhia da mana nesta deliciosa viagem.

 

Desejo que a Páscoa vos traga muitas amêndoas doces. Os meus amigos mais queridos vão comigo no coração...

 

Até à minha volta.

por Leonor Teixeira, a Ametista

Viagem

 

Desperto de uma vida sem sentido e saio. Há esperanças e enganos que se chocam. Tenho de ir. Levo comigo uma vontade incessante de agarrar aquela estrela, senti-la com a força que trago cá dentro.

Perco-me na urgência de partir e embarco numa viagem alucinante dos sentidos. Percorro caminhos a uma velocidade sem limites e respiro o aroma que me leva até ao mais ínfimo dos lugares. Há estradas sem fim. Viajo sem rumo, vou até ao desconhecido e alcanço o que tenho por descobrir. Paro num lugar sereno e saboreio cada momento doce. Seguro nas minhas mãos aquele pedaço de estrela que se aproxima lentamente. Guardo na minha alma o silêncio que chega até mim delicadamente. Sinto uma luz que toca o meu corpo frágil. É tudo tão suave.

Deixo-me ir nessa viagem sem direcção. Sinto-me transportar para um mundo que se depara tão perto de mim. Afasto-me do que não quero e fico mais próxima do que preciso perdidamente. Quero ir e não paro. Vou e não volto. Caminho lado a lado com as cores do arco-íris. Ergo os braços, grito num suspiro eterno e contemplo a essência da vida.

 

Acordo e sinto-me vaguear. Olho os retratos espalhados pela casa. Há um sorriso em cada um deles. Deixo-me ficar.

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Mar Nosso

Foste o meu verão, foste o meu agosto, apesar de nada mais do que palavras. Findou o agosto e perdeu-se a magia de nós. O setembro trouxe consigo a desilusão e o outono chegou com o sonho perdido no tempo. Naquele fim de agosto, no seu último dia, levei nas minhas mãos as tuas palavras e entreguei-as ao mar embrulhadas na areia. Levou-as com ele, mas não regressaram.

E naufraguei na minha perda de ti. Disse adeus ao mar e beijei a areia com a tua ausência. Ficaram pedaços de memórias, de pequenos mas tão grandes momentos.

Mas continuei a sonhar. Voei contigo entre o céu e o mar, sentimos o cheiro do horizonte, descobrimos a sua cor. Inventámos juntos aquela dança de amar e no nosso voo fomos livres, através dos tempos.

Sentei-me num rochedo e permaneci à espera. Esperei que a magia nos sustivesse sobre o mar e tornasse real a nossa liberdade para voar.

Mas não houve tempo para ti e para mim e ficou por descobrir a nossa dança na praia.

Agora, queria apenas que o destino me deixasse ficar junto do mar, trilhar areias, acordar e adormecer ao som das ondas, contemplar o amanhecer, o entardecer, absorver o anoitecer.

Hoje, gostaria que a vida me deixasse fazer do sol meu protector e da lua minha confidente, acordar de alma apaziguada e adormecer serena, aquietada.

Queria que o tempo me deixasse respirar oceanos, mergulhar nas suas águas, envolver-me nessa essência majestosa.

Aí, sim. Nesse lugar, sentiria a plena liberdade...

 

 

(Texto fictício, baseado na minha poesia, para a Fábrica de Histórias)

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Ametista

    Não adianta muito, porque há quem não respeite. E ...

  • Anónimo

    Tenho o livro " Asas perdidas " de sua autoria e g...

  • Ametista

    O que se consegue fazer hoje em dia...Beijinho

  • Happy

    O desenho é fantástico!

  • Ametista

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