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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. Leonor Teixeira, a Ametista

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. O meu sótão é cor de rosa. Leonor Teixeira, a Ametista

Perdi as asas que o tempo me cedeu

Vejo-me mendigar por becos paralelos às ruas da vida, imagino-me sob o céu de Toscana a contar as estrelas em dialecto italiano, mas os meus olhos não conseguem alcançá-las. Sinto-me nua neste silêncio absoluto, a inspiração desvaneceu há muito, as letras não deslizam na ponta dos meus dedos e não consigo completar os rascunhos inacabados.

Perdi as palavras no vazio dos caminhos e as folhas do meu diário de viagens ficaram em branco. Há uma distância incalculável entre os meus passos e todos os lugares, nada tem movimento, tudo é intocável. O tudo e o nada confundem-se, equivocam-se os sentidos, deixou de haver um enlace entre as verdadeiras coisas. Tudo me parece finito mesmo que inabalável. Parou o mundo ou acabou a vida?

Podiam morrer todos os relógios e quebrarem todos os espelhos, podiam fundir-se as idades e aninharem-se os corpos salpicados de Tejo e de Almonda. Podiam derreter os corações calados pelos pátios de Alfama e as almas viajarem nos eléctricos de Lisboa, por entre beijos molhados de sonhos cristalinos e abraços suados de pontes por construir. 

E queria. Queria levar de mim o meu chão de Ribatejo e voar até onde não existissem muralhas. Mas fiquei no mesmo lugar e não voei.

Perdi as asas que o tempo me cedeu.     

(Texto escrito em 29 de Março de 2016)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Esta não é uma história de amor

                                                                   in 'O Despertar dos Silêncios'

 

Estou aqui, sentada frente a um écran que outrora não fazia parte da minha vida e onde agora ficam expressas as minhas divagações, para quem as quiser ler.

Lembro-me que escrevia em folhas de papel timbrado ou nas sebentas da escola, umas vezes com lápis outras com esferográfica. Podia ser azul, preta ou encarnada, o importante era que escrevesse e assim nasciam as letras. E eu escrevia, escrevia sem parar, o meu pensamento flutuava em cada lugar que estivesse, tudo eram palavras que irrompiam e iam ficando desenhadas em rascunhos.

Ainda hoje guardo todas as folhas em que deixei escritos devaneios e desabafos, estão hoje amarelecidas como as antiguidades que se guardam num sótão qualquer, empalidecidas como o tempo vai deixando as nossas vidas.

Acendo um cigarro, eu não queria fumar aqui, mas o frio está cortante na minha varanda com vista sobre a cidade e dentro de casa há um aconchego que me prende, mesmo que amarelecidas fiquem as paredes deste recanto onde a música não pára de tocar e o relógio suspenso se repete no seu compasso apressado.

Recordo o tempo em que escrevia até amanhecer, adormecia quando a vida começava lá fora e a agitação das ruas era a minha tranquilidade. Refugiava-me no conforto dos lençóis e ia acordando, ora com a chuva a cair nas pedras da calçada ora com raios de um sol caloroso, enquanto as palavras surgiam subitamente no meu pensamento e me levantava para deixá-las escritas, não fosse eu esquecê-las durante o sono, sentir a minha imaginação em branco ao acordar.

Vivia entre palavras e pinceladas. Palavras que se soltavam ao palpitar da alma e pinceladas que deixava em cada tela, com cores, muitas cores, aquelas com que quis tingir a minha vida. E assim soltava os meus fantasmas, amava por entre as lágrimas que escorriam sobre as letras que fazia despertar, amava a cada palavra que se erguia dos trechos que ia construindo. Amava a cada misto de cores que colocava na tela e a cada nascer de cenários abstractos e paisagens, aquelas que inventava. 'Assim posso chorar porque ninguém vê, ninguém sabe quem sou', pensava eu.

Tudo eram histórias de amor, essa palavra repetida que deixava rastejar pelo papel, sempre marcada no topo de cada folha em branco, chorada em cada virar de página, gravada em cada tela pincelada. Mas o vento foi mudando de rumo a cada instante dos meus dias e, hoje e agora, eu já não quero escrever histórias de amor.

Quero continuar a escrever, a escrever sem parar todas as horas da minha existência, mas histórias onde o amor é palavra proibida e a dor não pode entrar. Quero continuar a sonhar, mas com um sorriso, por entre as gotas de tinta de uma caneta quase extinta, como que num fogo apagado pela coragem de quem arrisca o destino por cada sopro de vida, cada coração que não pode parar de bater, mas sem descrever uma única história de amor.

Quero perder-me no reino da essência das coisas, sentar-me no seio da beleza que cai em redor das cidades e parar no tempo. Deitar-me na areia de uma praia qualquer e implorar à linha do horizonte que o céu e o mar se beijem a cada pôr de sol. Quero adormecer submersa e, através das águas cálidas de um oceano sereno, ver o céu tornar-se azul a cada alvorada. Quero alcançar as estrelas como nas histórias que escrevi, transformar-me em pássaro, ter asas púrpura de veludo, rosto de lobo, alma cigana, coração de aço e subir à nuvem mais branca e doce.

Quero permanecer assim, como sempre fui. Rebelde, sempre rebelde, com sede de liberdade, com urgência de soltar o grito escondido que trago bem preso no ventre, mas sem chamar pelo amor nas minhas preces. Quero continuar com esta vontade de lutar e vencer ou sair vencida, mas lutar sempre e até sempre. Ser eu, sem medo de demonstrar quem fui, quem sou, o que sei e o que não sei, quem gostaria de ser. Simplesmente genuína, a transbordar de um desejo desmedido de dançar sobre as páginas do livro de histórias que escrevi, tocar o céu e beijar a lua, esconder-me no seu colo.

Tudo em mim é imensurável. O meu amor às letras, a minha rebeldia para deixar falar mais alto a minha alma, a minha força para gritar no silêncio das palavras até me doerem os dedos. É imensamente grande a minha vontade de abraçar todos os livros de poesia, aqueles que dormem na biblioteca do jardim da avenida onde, há muito tempo atrás, arrumei nas prateleiras para descansarem do desfolhar sôfrego em dias de correria. A minha sede de devorá-los com as mãos e com os olhos é tão maior, é uma ânsia que me arrepia a pele do tanto que quero ler e conhecer, do tanto que quero saber sobre os poetas que esquecem o mundo por amor às palavras e deixam no papel, cantadas em verso, as mais belas histórias nunca antes lidas.

E é imensurável, oh se é, a minha capacidade para sonhar acordada e acreditar, para depois desacreditar. É assim que sou. Mas já não quero histórias de amor.

Volto à varanda com vista sobre a cidade, quebrou-se o frio das madrugadas, observo as luzes que se acendem no ocaso e admiro a beleza que brota do esplendor que emanam depois do crepúsculo. Avisto silhuetas ao longe que passeiam, carros que circulam devagar num silêncio apagado pelo canto de uma cigarra que surge como numa noite quente.

Eu quero escrever cada momento, quero escrever sem parar. Conseguir descrever na perfeição o suspiro de um coração liberto e o brilho de um olhar que agradece o privilégio do despertar a cada manhã. Quero descrever em pormenor o momento em que o sol entra na minha vida para me abraçar, qual alma vazia que se preenche ao esquecer a palavra amar.

Fui deixando escritos, ao longo dos tempos, sentimentos de alma, esboços de uma vida, aqueles que se choram e deixam saudade. Histórias, memórias, momentos, sonhos que foram ficando guardados, uns num baú de memórias envoltos num laço de cordel, outros nas páginas do meu Danças em Silêncio, espero que para sempre.

Mas já não quero escrever mais histórias de (des)amor.

 

Cúmplices. Eu e as palavras.

por Leonor Teixeira, a Ametista

Cartas de (des)amor

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 (Imagem retirada de: google imagens)

 

Fui lendo as histórias que retirei do baú de recordações, minhas e tuas, que guardei no tempo que foi nosso. Li e reli, inventei e imaginei, construí e revivi.

Foram castelos de sonho que criei, desenhei-os na areia da minha praia mas levou-os o mar, o meu mar azul, em noites de tempestade.

Enquanto te amar, ouvirei sempre a mesma música. Quando ela deixar de tocar, esqueci-te para sempre.

 

in "O Despertar dos Silêncios"

por Leonor Teixeira, a Ametista

Da idade

E de repente a noite fez-se silenciosa, a cidade desmaiou nos passos de quem bebeu na urgência de esquecer. Ficaram os filhos da vida selvagem, adormecidos pela turbulência da loucura.

À parte isso as nuvens foram-se dissipando, as estrelas surgiram num céu pintado de azul e cinza, e ela conseguiu ouvir as águas a correr no regato. Ainda não sabe se se lembra dele, se se esquece dela própria. Mas sente, sente a vida escorrer por entre os dedos e o desassossego dos sentidos que lhe tomam.

Junto a isso as palavras que alguém, um dia, lhe deixou e lhe aquietam as mágoas, alguém que está longe mas consegue ser quem lhe cicatriza as feridas rasgadas pela soma dos anos. Porque disse-lhe: 'Toma o controle da tua vida. Idade é apenas um número. A ligação entre duas pessoas é muito mais.'

por Leonor Teixeira, a Ametista

Rascunhos de ti

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  (foto de mim por G.P. e alterada para desenho)


Escrevi para ti durante quase uma década.

Escrevi-te para que me lesses. Mas não o fizeste. Eu sei que não. Mesmo assim, continuei a escrever-te na esperança de que me procurasses nas palavras. Não foram apenas dias a rascunhar-te, foi muito mais do que esse tempo, muito mais. Mais do que dias, foram semanas, meses, anos. Anos que se perderam nas entrelinhas das histórias que nos inventei, noites em branco que me preenchi de letras, sinais que pensei serem possíveis para trazer-te de volta ao meu mundo imaginário, em forma de personagem.

Mas tu... tu nunca me leste.

por Leonor Teixeira, a Ametista

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

'Eu quero morar dentro de um livro'

 

165463_466107363462430_782985419_n.jpg 

(imagem retirada de: google imagens)

 

Eu quero morar dentro de um livro.

Acordar as princesas e os príncipes, que jazem nas letras das histórias, e fazê-los dançar sobre as folhas em branco que sobraram. Erguer os castelos que ficaram dos contos que tiveram um final feliz.

Quero pintar cada página com as mil cores das pradarias, o mistério das florestas, o ardor do sol em fins de tarde de verão, a nudez da lua cheia envolta nas estrelas e o cristalino das águas que beijam as areias num gemido.

Eu quero morar dentro de um livro.

E quero que tu, meu amor, sejas as páginas que me acolhem ao deitar e me confortam o sono com as palavras que me deixas num rascunho: Estou aqui até ao despertar dos silêncios.

 

in 'O Despertar dos Silêncios'

 

Um bem haja a quem escreve com alma e a quem lê com amor.

por Leonor Teixeira, a Ametista

do meu livro 'O Despertar dos Silêncios'

 

'Esta não é uma história de amor'

 

Estou aqui, sentada frente a um écran que outrora não fazia parte da minha vida e onde agora ficam expressas as minhas divagações, para quem as quiser ler.

Lembro-me que escrevia em folhas de papel timbrado ou nas sebentas da escola, umas vezes com lápis outras com esferográfica. Podia ser azul, preta ou encarnada, o importante era que escrevesse e assim nasciam as letras. E eu escrevia, escrevia sem parar, o meu pensamento flutuava em cada lugar que estivesse, tudo eram palavras que irrompiam e iam ficando desenhadas em rascunhos.

Ainda hoje guardo todas as folhas em que deixei escritos devaneios e desabafos, estão hoje amarelecidas como as antiguidades que se guardam num sótão qualquer, empalidecidas como o tempo vai deixando as nossas vidas.

Acendo um cigarro, eu não queria fumar aqui, mas o frio está cortante na minha varanda com vista sobre a cidade e dentro de casa há um aconchego que me prende, mesmo que amarelecidas fiquem as paredes deste recanto onde a música não pára de tocar e o relógio suspenso se repete no seu compasso apressado.

Recordo o tempo em que escrevia até amanhecer, adormecia quando a vida começava lá fora e a agitação das ruas era a minha tranquilidade. Refugiava-me no conforto dos lençóis e ia acordando, ora com a chuva a cair nas pedras da calçada ora com raios de um sol caloroso, enquanto as palavras surgiam subitamente no meu pensamento e me levantava para deixá-las escritas, não fosse eu esquecê-las durante o sono, sentir a minha imaginação em branco ao acordar.

Vivia entre palavras e pinceladas. Palavras que se soltavam ao palpitar da alma e pinceladas que deixava em cada tela, com cores, muitas cores, aquelas com que quis tingir a minha vida. E assim soltava os meus fantasmas, amava por entre as lágrimas que escorriam sobre as letras que fazia despertar, amava a cada palavra que se erguia dos trechos que ia construindo. Amava a cada misto de cores que colocava na tela e a cada nascer de cenários abstractos e paisagens, aquelas que inventava. 'Assim posso chorar porque ninguém vê, ninguém sabe quem sou', pensava eu.

Tudo eram histórias de amor, essa palavra repetida que deixava rastejar pelo papel, sempre marcada no topo de cada folha em branco, chorada em cada virar de página, gravada em cada tela pincelada.

Mas o vento foi mudando de rumo a cada instante dos meus dias e, hoje e agora, eu já não quero escrever histórias de amor.

Quero continuar a escrever, a escrever sem parar todas as horas da minha existência, mas histórias onde o amor é palavra proibida e a dor não pode entrar.

Quero continuar a sonhar, mas com um sorriso, por entre as gotas de tinta de uma caneta quase extinta, como que num fogo apagado pela coragem de quem arrisca o destino por cada sopro de vida, cada coração que não pode parar de bater, mas sem descrever uma única história de amor.

Quero perder-me no reino da essência das coisas, sentar-me no seio da beleza que cai em redor das cidades e parar no tempo. Deitar-me na areia de uma praia qualquer e implorar à linha do horizonte que o céu e o mar se beijem a cada pôr de sol.

Quero adormecer submersa e, através das águas cálidas de um oceano sereno, ver o céu tornar-se azul a cada alvorada. Quero alcançar as estrelas como nas histórias que escrevi, transformar-me em pássaro, ter asas púrpura de veludo, rosto de lobo, alma cigana, coração de aço e subir à nuvem mais branca e doce.

Quero permanecer assim, como sempre fui. Rebelde, sempre rebelde, com sede de liberdade, com urgência de soltar o grito escondido que trago bem preso no ventre, mas sem chamar pelo amor nas minhas preces.

Quero continuar com esta vontade de lutar e vencer ou sair vencida, mas lutar sempre e até sempre. Ser eu, sem medo de demonstrar quem fui, quem sou, o que sei e o que não sei, quem gostaria de ser. Simplesmente genuína, a transbordar de um desejo desmedido de dançar sobre as páginas do livro de histórias que escrevi, tocar o céu e beijar a lua, esconder-me no seu colo.

Tudo em mim é imensurável. O meu amor às letras, a minha rebeldia para deixar falar mais alto a minha alma, a minha força para gritar no silêncio das palavras até me doerem os dedos.

É imensamente grande a minha vontade de abraçar todos os livros de poesia, aqueles que dormem na biblioteca do jardim da avenida onde, há muito tempo atrás, arrumei nas prateleiras para descansarem do desfolhar sôfrego em dias de correria. A minha sede de devorá-los com as mãos e com os olhos é tão maior, é uma ânsia que me arrepia a pele do tanto que quero ler e conhecer, do tanto que quero saber sobre os poetas que esquecem o mundo por amor às palavras e deixam no papel, cantadas em verso, as mais belas histórias nunca antes lidas.

E é imensurável, oh se é, a minha capacidade para sonhar acordada e acreditar, para depois desacreditar. É assim que sou. Mas já não quero histórias de amor.

Volto à varanda com vista sobre a cidade, quebrou-se o frio das madrugadas, observo as luzes que se acendem no ocaso e admiro a beleza que brota do esplendor que emanam depois do crepúsculo. Avisto silhuetas ao longe que passeiam, carros que circulam devagar num silêncio apagado pelo canto de uma cigarra que surge como numa noite quente.

Eu quero escrever cada momento, quero escrever sem parar. Conseguir descrever na perfeição o suspiro de um coração liberto e o brilho de um olhar que agradece o privilégio do despertar a cada manhã. Quero descrever em pormenor o momento em que o sol entra na minha vida para me abraçar, qual alma vazia que se preenche ao esquecer a palavra amar.

Fui deixando escritos, ao longo dos tempos, sentimentos de alma, esboços de uma vida, aqueles que se choram e deixam saudade.

Histórias, memórias, momentos, sonhos que foram ficando guardados, envoltos num laço de cordel, nas gavetas do meu sótão cor de rosa, espero que para sempre.

Mas já não quero escrever mais histórias de (des)amor.

 

Cúmplices. Eu e as palavras.

 

in "O Despertar dos Silêncios"

por Leonor Teixeira, a Ametista

Assombração

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(imagem retirada de google imagens)

 

É tarde. Eu sei que é tarde, mas não para mim porque as madrugadas tornam-se cedo demais sempre que os silêncios chovem nas palavras, pelas gotas que jorram da pele que rasga, num arrepio, com o gemido dos ventos que ganham rosto.

É tarde e vejo-te no fim da rua mas disseram-me que não eras tu e eu, no meu mundo imaginário, acredito que és um fantasma que responde aos meus apelos e vens, deambulas pelas esquinas da cidade até me chegares, é como um encontro sem hora marcada entre dois corpos que se tentam. Talvez sejam as nossas almas a sentarem-se num café de beira estrada, à espera um do outro, como quem fica até nunca acontecer. Sempre vestidos de branco, mortos no desejo de que o infinito seja morada, onde a quietude existe debaixo dos bonsais gigantescos que amparam o brilho das estrelas que se deitam à beira rio e esperam que dele se faça lago, na ânsia de que haja mais que branco prata. Afinal, o azul não existe só para pintar o céu, as gardénias que florescem nas margens merecem outra cor para além da candura das pétalas, bem que poderiam ser azuis.

Repetem-se as vozes, ecoam até ao romper das entranhas, quem vejo é um espectro que à noite se cobre de preto mas és tu, eu sei que és tu quem percorre todas as vielas na busca de um anjo da paz. Peço-te que seja eu para me levares numa viagem sem bilhete de volta e eu, na minha irreverência, esqueço-me das gentes e das coisas e corro para a paragem de onde não se vêem os regressos. Eu, que sou a palidez em estado puro e sem sentidos, visto-me de negro antes de anoitecer para que consigas alcançar-me, que do ébano das nossa vestes surjam trajes brancos e nós, na nossa verdadeira essência, embarquemos numa jornada de milagres merecidos.
Dizem que as pedras da calçada também choram na queda dos beijos que ficaram por dar e que a terra, quando está molhada, estremece na poeira densa e quente, quem dera que adormeça na despedida dos pássaros que voltaram a voar e a lua desperte nas bermas das avenidas assombradas.
É tarde, eu sei. Mas eu quero a ondulação de um sopro envolto em flores de lótus azul celeste, à superfície do rio que está à nossa espera para dançar.

por Leonor Teixeira, a Ametista

A velha máquina de escrever e outras coisas antigas

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(imagem retirada de google imagens)

 

Estava escuro. Escuro e silencioso. Apenas um ranger de degraus sob a sombra de uns pés descalços na poeira e uma mão, enrugada, agarrada ao corrimão da escadaria que oscilava a cada passo.

Os vidros das janelas estavam partidos, as ervas daninhas rastejavam pelos parapeitos e a porta de entrada não fechava, batia compassadamente ao sabor do vento, umas vezes manso, outras voraz.

Entrou no quarto empobrecido pelos anos, as memórias bailavam sobre os móveis. Livros sem capa, diários com palavras desbotadas, bonecas sem rosto, retratos rasgados. A um canto, um espelho embaciado e estilhaçado reflectia as cicatrizes de um corpo envelhecido com cabelos desgrenhados, dentro de um traje esfarrapado. 

'Quem és tu?', perguntou-se. 'No que te transformaste ao deixares de ser poema? Em que parte do caminho ficaram os teus versos, onde os perdeste?'.

Sobre a escrivaninha insegura no soalho a desabar, a velha máquina de escrever. A seu lado, papéis amarrotados, o telefone preto obsoleto e o cinzeiro de ferro forjado atulhado de restos de cigarros ressequidos. No rolo da máquina, uma folha amarelecida onde conseguia, ainda, ler-se: 'Ensina-me a voar, que eu ensino-te a sonhar. Vamos dançar? Amo-te tanto. M.'

Abandono. Tudo cheirava a abandono. Até as palavras que ficaram tinham o assombroso aroma do silêncio, marcado pela ausência de quem nunca mais voltou da despedida.

Caído no chão, prestes a ruir, o relógio que girou durante décadas estava agora parado pelo desmaio desconcertante da corda que fazia, antigamente, rodopiar os ponteiros.

Os quadros, outrora pincelados a guache, permaneciam nas paredes rachadas, agora empenados e sem cor pelo orvalho das noites que consumia as tonalidades. Quem se interessava por pinturas a guache, se acabavam sempre por desaparecer?

Saudade. Apenas saudade. Era o que restava. Já não sentia dor, acabava de se entregar ao chamamento da decadência que lhe permitia, apenas, alguns gestos demorados e finais. 'Leva-me', dizia repetidamente. 'Não quero voltar'.

Foi numa solidão assustadora que se deixou ficar, sentada na cadeira a tombar sobre a escrivaninha, frente à velha máquina de escrever, abraçada às memórias gastas pelo tempo.

A alma sentou-se na janela e, ao ver que o céu não tinha lua, distanciou-se serena e poética.

por Leonor Teixeira, a Ametista

Eu quero morar dentro de um livro

 

Eu quero morar dentro de um livro. Acordar as princesas e os príncipes, que jazem nas letras das histórias, e fazê-los dançar sobre as folhas em branco que sobraram. Erguer os castelos que ficaram dos contos que tiveram um final feliz. Quero pintar cada página com as mil cores das pradarias, o mistério das florestas, o ardor do sol em fins de tarde de verão, a nudez da lua cheia envolta nas estrelas e o cristalino das águas que beijam as areias num gemido.

Eu quero morar dentro de um livro. E quero que tu, meu amor, sejas as páginas que me acolhem ao deitar e me confortam o sono com as palavras que me deixas num rascunho: Estou aqui até ao despertar dos silêncios.

 

 

imagem retirada de: google imagens

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

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comentários arrecadados

  • Ametista

    Querido Cúmplice, Obrigada por passares pelo meu s...

  • cumplicedotempo

    De acordo com tudo o que disseste, e mais encantad...

  • Ametista

    Querida Green,Obrigada por passares por aqui.. É s...

  • green.eyes

    Querida Leonor,É sempre um prazer ler um texto teu...

  • Ametista

    Obrigada.. desculpe o tardio da resposta. Sabe? Já...

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  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D

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