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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Memórias de Primavera

Lembro-me, lembro-me, oh se me lembro. Saudosamente.

As glicínias enfeitavam a pérgula e coloriam as pedras da calçada no seu reflexo com o sol, as árvores cheiravam a arco-íris e a avenida transformava-se num jardim de aromas doces.

Eu ia buscar a minha bicicleta encarnada e andava em redor dos canteiros onde as flores desabrochavam a sorrir. Nas bermas do rio os namoros despertavam, eu sentava-me na ponte debruçada sobre as águas e, descalça, sentia o refrescar das manhãs pelo chapinhar dos patos. Depois, rebolava pelo relvado onde as plantas trepadeiras se beijavam.

Voltava para casa numa correria, dançava pelos quintais perfumados pela flor de laranjeira e subia às árvores a cantar. Apanhava laranjas e tangerinas, pulava pelos telhados e brincava com os gatos que passavam a vadiar.

Saltava à corda, jogava à macaca e, nos fins de tarde, ia para o sótão construir castelos de lego. À noitinha, inventava sonhos no cintilar das estrelas e escrevinhava pequenos contos de príncipes e princesas sob o roseiral a florir.

E lembro-me, lembro-me nostalgicamente. Da minha mãe me embalar no seu colo a cada luar, acariciar os meus cabelos e contar-me histórias de encantar para eu adormecer. Era tudo tão suave.

Em tempos de feira de Março, levava-me a andar de carrossel com as minhas irmãs e, juntas, comíamos algodão doce por entre as gentes que passeavam numa alegria contagiante. Lembro-me dos rostos, do brilho nos olhares e do rasgo dos sorrisos.

Lembro-me, oh se me lembro de, num dia primaveril, lhe dizer:

- Mãe, não quero crescer.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Primavera (II)

Encontrei-te na outra noite, trazias contigo aquele sorriso de criança e o olhar cândido que me fez prender a ti no mais inesquecível dia de Primavera. Não mudaste, continuas com esse teu ar de miúdo traquina, não consegui resistir a dizer-te que não envelheceste nem um pouco.

Ao olhar através do verde escuro dos teus olhos, vieram-me à lembrança recordações de nós, viajei nas melhores memórias que vivemos, embalei no tempo dos abraços e das mãos que se deram na mais bela história de um amor que não se repete.

Fomos felizes no tempo que foi nosso, arrecadámos para sempre as nossas horas que fizeram parar todos os relógios e nos deixaram ser nós mesmos. Deixámos guardadas na palma da mão as gotas da água cristalina dos rios derramados a nossos pés em fins de tarde primaveris e elas não escorreram por entre os dedos, lembras-te?

Ainda sinto na pele o aroma das marés que descobrimos, as correrias contra a demora nas areias, os passeios da sede de viver que saciámos no nosso deserto que, de ermo, se fez jardim.

Na outra noite revivi e renasci, atravessei o nosso mundo uma vez mais, encontrei-me ao encontrar-te a ti, abracei a árvore que plantámos numa soalheira manhã de fins de Abril e onde ficaram escritos, numa encosta, os nossos nomes. Nenhuma outra estação os abalou, nem os anos, nem o sol e a chuva os apagou, ainda sinto os beijos que nós demos e, no momento em que te lembro, consigo vê-los baloiçar sob os ramos.

Quis repetir o que ficou para trás, abri o baú das nossas vidas e dancei contigo na urgência de te ter, como também tu me quiseste no tempo das nossas madrugadas a florir. E foi tanto o quanto te quis que deixou de haver Verão, Outono e Inverno e escutei por entre lágrimas e sorrisos de saudade, como se fosse sempre Primavera, os solos de guitarra que só tu sabes tocar.

Fui buscar os segredos que ficaram presos à raiz da nossa história, percorri as viagens que fizemos de aventura às costas, passei nas estações de comboio onde parámos de corpos a cheirar a liberdade, sustive-me nos lugares onde ficámos perdidos na nossa essência de amar.

E ondulei na pele do teu rosto, senti os teus lábios nos meus cabelos, a nossa respiração tocou-se por entre a luz e a sombra das noites e fomos nós. Recebi das tuas mãos um cravo branco, reacendeu-se o palpitar dos nossos corações vindo da mais colorida estação, outrora confidente do mais sublime dos romances, e voltei a amar-te como nunca mais amei ninguém.

E eu quis que o tempo fosse todo nosso, quis tanto que parasse ao murmúrio da nossa voz e ao eco do silêncio dos sorrisos que são só meus e teus e quis, avidamente, que o mundo se calasse ao nosso abraço no mais doce amanhecer primaveril.

 

 

(Texto escrito em 13 de Dezembro de 2010, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

Primavera

Há pressa no quintal da casa da minha mãe.

As flores do canteiro teimam em desabrochar. A terra insiste em secar depois da rega invernosa. Na flor de laranjeira que brota, poisa uma abelha em busca de néctar. Há um aroma fresco espalhado no ar.

No varão, a roupa estendida esvoaça e enxuga ao sabor da aragem matinal. Abrem-se as janelas de par em par e afastam-se os cortinados para o sol entrar. Arrastam-se móveis, lavam-se paredes, mudam-se as cores do cenário do lar.

Os gatos vadios miam no telhado e lutam por um lugar quente.

Os velhinhos passeiam na avenida e sentam-se nos bancos do jardim das rosas. Enquanto recordam tempos de outrora, crianças brincam no parque e soltam gritos de alegria.

No final da tarde enchem-se as esplanadas, há conversas amenas e lançam-se sorrisos no ar. Preparam-se caminhadas, planeiam-se viagens, fazem-se as malas para passear.

Os patos chapinham nas águas do rio. Esperam pelo pão de quem se debruça para os alimentar.

Os namoros florescem, multiplicam-se os beijos, cresce a vontade de dar e receber. 

À noite, trocam-se afectos na pérgula. É tempo de amar.

Cheira a lilases dentro da casa da minha mãe.

À porta, respiro a Primavera que nasce.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

img1514942427922(1).jpgo outro lado do sótão

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comentários arrecadados

  • Closet

    ohhh que nostalgia me deu hoje e encontro-te aqui ...

  • Ametista

    É verdade... e que 'velha guarda'. Era maravilhoso...

  • green.eyes

    Eu acho que 95% da "velha guarda" foi embora…Do no...

  • Ametista

    Ficava aqui para sempre, acreditas? Mas há amigos ...

  • green.eyes

    Já não aparecias a tanto tempo, que já pensava que...

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