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O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

O meu sótão é cor de rosa

Às vezes, de noite, subo ao telhado do sótão, sento-me a ver as luzes da cidade e o frenesim do fim dos dias e penso que gostava de ficar ali para sempre. L.T.

Cenário sombrio

 

 

Não sabem.

Não sabem o vazio das madrugadas. Não sabem da solidão desse vazio, que a transporta a um imaginário incomparável, a conduz aos cenários mais umbrosos onde a luz entra, desmaiada, por entre os ramos mais altos das sequóias.

Ela e os lugares fantasmagóricos, ela e as sombras.

Aprendeu a gostar desse vazio, do que a acompanha nas brumas, cheira-lhe a silêncio e a memórias, sabe-lhe a incenso e a velas.

Não sabem.

Não sabem da solidão que vem do vazio, não sabem do silêncio que chega, sereno.

Não sabem. Ninguém sabe.

Dêem-lhe folhas brancas e lápis de carvão. Dêem-lhe liberdade para lançar palavras, as suas, ao barco de papel que ondula, envolto em cisnes, num lago de névoas densas.

Deixem-na desenhar esse cenário e pintá-lo com as cores da sua alma.

 

 

imagem retirada de: google imagens

por Leonor Teixeira, a Ametista

Esquecer, renascer

 

Um dia, quero morrer contigo.

Quando subires aos céus e chegares às estrelas, perto do sol e da lua, quero estar a teu lado para, finalmente, renascer.

Hoje a minha alma jaz na velha casa em ruínas, outrora nossa, o meu corpo vagueia pelas ombreiras das portas. As janelas batem nos parapeitos com o vento que sopra voraz, das prateleiras empoeiradas caem os livros antigos que lemos, são iguais às nossas vidas. Há folhas que se soltam do diário da nossa história, espalham-se pelo chão que range a cada passo que dou. É como as horas dos dias que nos pertenceram, perderam-se num momento intemporal.

E eu abandono-me. Abandono-me silenciosamente, fujo do passado em direcção incerta, alcanço o barco onde navegámos sem rumo e que morre agora em terra firme depois da procura de um rio que corre turvo. Não consigo tocar nas suas águas, parecem bolas de neve que se desfazem ao passar.

Recuso-me respirar, suspiro como que pela última vez, sinto-me perto do que não cheguei a conquistar. Onde ficaste, alma que se perdeu por atalhos obscuros, em estradas sem saída? Até no final se repete o desencontro, o nosso, como duas sombras que se cruzam, desconhecidas.

Apagam-se as luzes, desvanecem as cores, tudo se torna escuro e tu ficas fantasma da velha casa. Eu, parto solitária no instante em que te esqueço e caminho numa nuvem que desceu à terra.

 

Por enquanto, estou viva.

 

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

Amor solitário

"Por todo o atelier pairava o aroma intenso das rosas e quando a branda aragem estival corria por entre as árvores do jardim, entrava pela porta a fragrância carregada do lilás, ou ainda o perfume delicado do espinheiro de floração rósea. Estendido no divã de bolsas de seda persas, a fumar, como era seu costume, cigarro após cigarro, Lord Henry Wotton só conseguia vislumbrar do seu canto as flores adocicadas e cor de mel de um laburno, cujos ramos trémulos pareciam mal poder suportar o peso de beleza tão fulgurante."

 

"O retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde

 

(...)

 

Solitário. Sou um solitário. Por onde andas, querida Lauren? Partiste com o vento numa manhã quente de Outubro, desapareceste por entre as searas que estão para lá do jardim e não voltaste. Nesta casa permanece o teu cheiro, aquele que ficava agarrado à minha pele sempre que me abraçavas.

Esperaste por mim tantos anos depois de todas as minhas promessas, agora sou eu quem espera por ti. Perdoa-me, meu amor, por não ter cumprido tudo o que inventámos para nós.

Eras mais velha que eu, mas emanavas juventude. Acho que me apaixonei pela tua força de viver, pela tua inocente rebeldia e alegria contagiantes. Lembro-me do teu sorriso, quebrava qualquer ausência nossa e a tristeza quase insuportável de não poder estar a teu lado tornava-se menor. E tu, Lauren, eras tão imensamente leal.

Para lá da janela, o aroma quente das searas aproxima-se agora de mansinho com a aragem fresca dos fins de tarde e eu pressinto-te chegar. Vejo uma sombra, pareces-me tu, irradias felicidade e vens ao meu encontro. Sempre gostaste de correr pelas searas, sentias o sublime sabor da liberdade. Mas não, não és tu que vejo. É a minha imaginação. Estou velho e cansado e esta espera incessante de ti perturba-me e sinto-me alucinar. Quero arrancar daqui este silêncio sufocante, rasga-me a pele e fere-me a alma. Fazes-me tanta falta.

Acendo mais um cigarro, quero afastar este aroma a flores que invade o atelier e me destrói por dentro por não estares aqui. Rosas, adoravas rosas e, desde há muitos anos, encomendo um ramo vermelho todos os dias na florista e enfeito este lugar que é tão teu. E volto a pintar. Pinto-te a ti, pinto-me a mim, pinto-nos a nós com as cores de um crepúsculo tão nosso, meu amor.

Estranho, deves pensar. Mas, sabes? Resolvi seguir o teu sonho e comecei a pintar. Um dia, acordei a pensar em ti como todos os dias desde que partiste, saí de casa, fui à lojinha de artes que fica no fundo da rua e comprei guaches e aguarelas, pincéis, telas e cavaletes. No lugar da sala criei um atelier, nas paredes estão os quadros que fui pintando ao longo dos tempos. Um dia, se voltares, mostro-te a tela que me ofereceste, incompleta, onde estão desenhados os nossos corpos. Quase consegui terminá-la e está exposta junto à janela que dá para o jardim, perto das tuas searas. Todos os dias olho para ela, admiro-a durante horas a fio como que a imaginar o momento em que, juntos, pintaremos o cenário que lhe falta. 

Pareço um miúdo enamorado como quando me apaixonei por ti naquela tarde, há quarenta e quatro anos atrás. Lembras-te? Éramos tão jovens e eu, muito mais que tu. Será que um dia estarei cá para ver-te chegar? Se esse dia acontecer, deixo-te esta declaração de todo o meu amor por ti e que nunca chegaste a perceber, ou a acreditar. 

E agora, que me resta? Restam-me flores, aromas, sabores e pinceladas. Cada um(a) dele(a)s é um pedaço de ti e da tua juventude que creio ser eterna porque, dizem, não envelheceste. Olho para o meu auto-retrato, vejo um homem jovem e bonito. Será que também eu não envelheci para te receber, em todo o meu fulgor, no teu regresso? Não. É desvario meu, apenas desvario. E assim ficarei, perdido nesta beleza quase transcendental, completamente só e sem ti, Lauren, minha amada Lauren.

 

Teu até sempre.

 

D.


 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

por Leonor Teixeira, a Ametista

'Não é o sol que faz a sombra'

 

Silêncio. Quero silêncio, diz a minha mente ensurdecida pelo sopro arrogante do vento que entra, num tumulto, pelas frestas da minha casa quase vazia e sem cor.

Mas o meu silêncio é astuto e intocável, envolve a minha solidão como uma bruma, veste-me de cinza e purifica de uma forma enganadora o meu corpo enegrecido pelas multidões.

E eu quero viver depressa, mas o meu silêncio assusta-me. É oco como o sossego que me acolhe, melancólico como a inércia dos meus gestos, funesto como os meus fantasmas mais recônditos, vago como a minha apatia pelos amanheceres no asfalto.

Eu quero silêncio, sim, mas tenho medo. Medo da sombra deste silêncio sedutor que atraiçoa as horas das minhas noites, ganha voz a cada segundo dos meus minutos e me segreda num beijo que tento evitar:

- Escreve sempre que o teu coração palpitar e a tua alma ditar, mas em silêncio. Tacteia as palavras no papel e deixa-te ficar aqui, onde a beleza do nada te sustém. Porque a sombra de que falas sou eu e chamam-me cegueira. A cegueira que se alimenta dos teus passos que dançam na procura da música que deixou simplesmente de tocar. É esta a melodia do silêncio, a do teu silêncio.

E o outro eu, o que não fala mas ouve e vê, geme num sufoco que ecoa pela casa e a sombra cega pára, atenta, ao meu lamento que se solta:

- Mas eu quero o silêncio das areias. É brando e cristalino, salpica-me a pele e a alma com a frescura das marés nos fins de tarde.

 

 

(Texto construído para a Fábrica de Histórias à volta do provérbio: Não é o sol que faz a sombra)

 

imagem retirada de: http://fotos.sapo.pt/

por Leonor Teixeira, a Ametista

Suave Recordação

 

 

 

Ainda hoje gosto de mergulhar nos lençóis onde, naquela noite, os nossos corpos se enlaçaram. Ainda hoje sinto as tuas mãos percorrerem o meu corpo na mais perfeita carícia, sinto que estás aqui a tocares nos meus cabelos. 'O teu olhar deixa-me assim...' disseste. Perdi-me no murmúrio da tua voz, entreguei o meu corpo ao teu, envolvi-me em ti.

Cai serena a madrugada, sinto-te do outro lado da cidade. Tocam três badaladas no relógio da torre da igreja, acendo um cigarro e escrevo para ti. O vento não sopra, há um cão que ladra ao longe e uma cigarra que persiste em acompanhar a minha solidão com o seu canto incessante. O meu imaginário vagueia pela varanda com vista sobre a cidade que dorme tranquila.

Volto para o vazio dos lençóis, têm o teu cheiro marcado. Elevo-me num sono encantado onde invento a fantasia que me embala num cenário de cetim. Estás aqui, sinto-o. Há uma concha que se cria no centro de uma cama por fazer. Somos nós.

Regresso à varanda envolvida num lençol, pétalas de rosa vão caindo no chão. A vista sobre a cidade ilumina-me o rosto, o meu corpo estremece pela perda do que não sei.

Há um outono a morar na minha alma.

 

 

 

imagem retirada de: http://photobucket.com/

por Leonor Teixeira, a Ametista

Desabafos solitários

 

Encontrei a minha amiga M. ontem. Estava na avenida a alimentar os patos que se aproximavam da pérgula com avidez. Achei-a distante, com o olhar vago entre as águas de um rio que corria devagar e um céu que se pintava de azul. Não deu pela minha presença quando me aproximei mas, ao ver-me, esboçou um sorriso. Percebi que não era o mesmo de antigamente.

Convidei-a para um café. Aceitou de imediato e fomos andando, lado a lado, sob os castanheiros que enfeitam os beirais do longo passeio da avenida. O sol tinha despontado neste domingo, escondia-se por entre as árvores do jardim onde famílias inteiras passeavam e os velhinhos se sentavam nos bancos frente aos canteiros floridos.

Sentámo-nos numa mesa do lado de lá da esplanada, junto ao rio, onde o sol nos ia protegendo do frio e aquecendo o corpo e a alma.

Pedi um café para duas, acendi um cigarro e perguntei à M. se queria desabafar.

Disse-me que sentia uma tristeza que lhe rasgava a alma, que tinha medo do amanhã. Falou-me da retrospectiva que fez da sua vida, que não era a que queria ter tido, que gostaria que tudo tivesse sido diferente. Contou-me as coisas que queria ter feito e não fez, os objectivos de vida que teve e não se cumpriram. Disse-me o quanto gostaria de ter conhecido outros povos, outras culturas, outros climas, sentir outros cheiros, ver outras cores. Viagens que idealizou e que se ficaram apenas pela descoberta das imagens que a televisão e o computador nos mostram. Falou-me das crenças que tinha e que deixaram de existir, das lutas em vão por dias melhores, da solidão. Sim, a minha amiga M. falou-me de solidão. Disse-me que se sentia só, mas resignada. Não se imaginaria, sequer, em qualquer outra situação que não fosse essa, tamanha tinha sido a sua entrega a uma vida que se fechara para o mundo. Falou-me dos dias e das horas solitárias enquanto o planeta gira lá fora, injusto e catastrófico às mãos do egoísmo e ganância do Homem. Disse-me que a amedronta ficar assim, a assistir ao desabar do mundo sem ninguém por perto. Contou-me que, a cada manhã, deseja encarnar uma outra personagem, qualquer uma que não ela. Alguém completamente diferente, mas que lhe permita voltar a ter a vivacidade que sempre a acompanhou, o sorriso aberto, as gargalhadas e aquela vontade de viver sempre inquebrável. 'Sinto-me perdida. O meu espírito está indiferente e a minha alma errante', confessou. Perdida, sim. Notei-o desde que a encontrara, mas mostrava-se adaptada e aparentemente bem. Mas o mundo não precisava de saber que a tristeza lhe dilacerava a alma e o coração. Sentia-se despedaçada, sem rumo, ausente, distante.

Ouvi-a atentamente, uma lágrima caía-me pelo rosto a cada palavra sua. A voz tremia-lhe a cada sentimento revelado, mas não chorou. Disse-me que as lágrimas secaram do tanto que caíram ao longo dos tempos. Falou-me de saudade, daquela que a acompanha a cada instante, saudade de quem foi. Contou-me do papel que desempenha todos os dias, da vontade de desistir e partir em busca de algo que a liberte. 

Confessou-me o que gostaria de ter sido. Talvez um pássaro. Poderia ter sido uma gaivota, uma andorinha, um falcão, um corvo. Queria ter tido uma outra vida, vivido uma outra história, pertencido a um outro destino. Gostaria de ter percorrido uma outra estrada, traçado um outro rumo, seguido numa outra viajem. Queria ter pisado um outro chão, vivido num outro lugar. Gostaria de ter tido uma outra alma, um outro coração, uma outra mente, outros sentidos.

Não consegui interrompê-la no seu desabafo. Senti um nó na garganta e um arrepio na pele. As palavras escondidas por detrás de um rosto cansado desprendiam-se agora, soltavam-se a cada raio de sol que incidia sobre o nosso lugar.

'Queria que tudo tivesse sido tão diferente', disse no final do desabafo. E sorriu, como se aquele momento a tivesse ajudado a ganhar força para enfrentar qualquer batalha que se lhe deparasse. Porque faz tanta falta um ombro amigo, alguém que ouça mesmo que em silêncio. Basta escutar, porque esse gesto é demasiado importante e demonstra que pode existir sempre alguém que, em determinados momentos e por algum tempo, consegue ajudar a quebrar qualquer solidão.

 

por Leonor Teixeira, a Ametista

por: Leonor T, a Ametista

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comentários arrecadados

  • Closet

    ohhh que nostalgia me deu hoje e encontro-te aqui ...

  • Ametista

    É verdade... e que 'velha guarda'. Era maravilhoso...

  • green.eyes

    Eu acho que 95% da "velha guarda" foi embora…Do no...

  • Ametista

    Ficava aqui para sempre, acreditas? Mas há amigos ...

  • green.eyes

    Já não aparecias a tanto tempo, que já pensava que...

esconderijos do sótão

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